
O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), António Guterres, afirmou que a humanidade falhou em conter o aquecimento global a 1,5°C, limite estabelecido pelo Acordo de Paris, e alertou que ultrapassar esse patamar trará “consequências devastadoras” para o planeta.
A declaração foi feita em entrevista ao jornal britânico The Guardian e à agência Sumaúma, publicada nesta segunda-feira (28), poucos dias antes da abertura da COP30, que será realizada no Brasil, de 10 a 21 de novembro.
“Vamos reconhecer o nosso fracasso”, disse Guterres. “Ultrapassar 1,5°C tem consequências devastadoras. Algumas dessas consequências são pontos de inflexão, seja na Amazônia, na Groenlândia, na Antártida Ocidental ou nos recifes de coral.”
O secretário-geral alertou que, se nada mudar, a Amazônia pode se transformar em uma savana, com impactos irreversíveis sobre o clima global.
“Não queremos ver a Amazônia como uma savana. Mas esse é um verdadeiro risco se não reduzirmos drasticamente as emissões de gases de efeito estufa o mais rápido possível.”
A última década foi a mais quente da história, e apenas 62 dos 197 países signatários do Acordo de Paris enviaram seus planos de ação climática (NDCs).
Os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, abandonaram o acordo; a União Europeia não cumpriu metas prometidas; e a China, maior emissora mundial, é criticada por compromissos insuficientes.
Guterres também defendeu a maior presença de povos indígenas nas discussões da COP30, dizendo que eles são “os melhores guardiões da natureza”.
“Todos sabemos o que os lobistas querem — aumentar seus lucros. E o preço será pago pela humanidade. É fundamental investir nas comunidades indígenas.”
A entrevista, concedida ao repórter Wajã Xipai, do povo Xipai, marca a primeira vez que Guterres fala diretamente a um jornalista indígena.
O secretário-geral, que encerra seu mandato em 2026, reconheceu que deveria ter priorizado mais cedo as questões climáticas, e fez um apelo aos líderes globais:
“Não adiem mais o corte das emissões. O tempo está acabando.”