A Polícia Federal cumpriu nesta quarta-feira (12) mandado de busca e apreensão contra Carla Ariane Trindade, ex-nora do presidente Lula, sob suspeita de intermediar interesses de uma empresa investigada por superfaturamento e desvios em contratos financiados pelo FNDE, órgão vinculado ao Ministério da Educação.
Carla Trindade foi casada com Marcos Cláudio Lula da Silva e, segundo a PF, era tratada como “pessoa com influência no governo federal” por empresários ligados à Life Tecnologia Educacional, alvo da Operação Coffee Break. A investigação aponta que ela viajou pelo menos duas vezes a Brasília com passagens pagas pelo dono da empresa, André Mariano, para defender demandas da companhia junto ao FNDE e outros órgãos públicos.
A Life, que fornece materiais e serviços educacionais a prefeituras, é investigada por supostos desvios, superfaturamento e fraudes em processos licitatórios em municípios do interior paulista. Só em Sumaré (SP), a PF identificou repasses de cerca de R$ 52 milhões entre 2021 e 2023 — período que atravessa os governos Bolsonaro e Lula — com pagamentos mantidos em 2024. Em uma das buscas, agentes apreenderam R$ 2,1 milhões em espécie.
A operação, realizada em parceria com a Controladoria-Geral da União, cumpriu 50 mandados nos estados de São Paulo, Paraná e Distrito Federal. Segundo comunicado da CGU, há indícios de corrupção ativa e passiva, fraude em licitação, superfaturamento e tráfico de influência.
A presidente do FNDE, Fernanda Mara Pacobahyba, teve ao menos duas reuniões registradas em agenda oficial com Mariano — em dezembro de 2023 e maio de 2024. O órgão afirmou que os encontros não resultaram em decisões administrativas e que o FNDE não contrata diretamente fornecedores de material didático, limitando-se a repassar recursos a estados e municípios.
Outro alvo da operação é Kalil Bittar, irmão de Fernando Bittar, coproprietário do sítio de Atibaia citado na Lava Jato. Segundo a PF, ele teria atuado na prospecção de negócios da Life e recebido transferências bancárias da empresa. Em um dos contatos, Bittar teria discutido detalhes de um edital em Hortolândia antes mesmo de sua publicação.
A Secretaria de Imprensa do Planalto não se manifestou. A defesa de Carla Ariane Trindade informou que só comentará o caso após acesso aos autos. A reportagem não localizou representantes da Life nem a defesa de Kalil Bittar.
Com a primeira etapa da Operação Coffee Break concluída, a PF segue analisando documentos e movimentações financeiras para identificar eventuais conexões entre agentes públicos e contratos da área educacional. Novas fases da investigação não estão descartadas.