Uma atividade pedagógica sobre mitologia afro-brasileira desencadeou um episódio de intimidação na Emei Antônio Bento, no bairro do Caxingui, zona oeste de São Paulo. Após a filha de 4 anos desenhar uma orixá durante o trabalho coletivo com o livro Ciranda de Aruanda, o pai da criança voltou à escola no dia seguinte acompanhado de quatro policiais militares armados. Ele é soldado da PM e afirmou não aceitar que a filha participasse da atividade, prevista no currículo antirracista da rede municipal.
O caso começou na terça-feira (11), quando o homem buscou a filha e retornou à escola para reclamar com a professora. Segundo o boletim de ocorrência registrado pela diretora, Aline Aparecida Floriano Nogueira, o pai apontou o dedo para o rosto da educadora e disse que a escola estava “incluindo umbanda” na vida da criança. Em seguida, rasgou parte do mural onde estava o desenho feito pela filha.
A diretora relatou que tentou explicar que o trabalho não tinha caráter religioso, mas integrava o ensino de história e cultura afro-brasileira, previsto em lei federal. Ela sugeriu que o pai formalizasse a queixa por escrito para ser discutida no conselho escolar — o que não aconteceu.
No dia seguinte, quatro policiais militares chegaram à escola afirmando ter recebido denúncia de imposição religiosa. Testemunhas dizem que os agentes estavam armados, um deles com uma metralhadora. Segundo apuração do jornal Folha de São Paulo, a diretora disse que foi coagida e acionou a supervisão da rede municipal e a Guarda Civil Metropolitana para mediar a situação. Os policiais permaneceram por mais de uma hora na unidade e conversaram com o pai do lado de fora antes de ir embora.
O sindicato dos profissionais da educação, Sinpeem, publicou nota de repúdio afirmando que a diretora passou mal após o episódio e ressaltou que a escola tem respaldo pedagógico e legal para trabalhar conteúdos relacionados à cultura afro-brasileira. A secretaria municipal informou que a atividade faz parte das propostas curriculares obrigatórias da rede de ensino.
O livro que deu origem à atividade, Ciranda em Aruanda, apresenta orixás da mitologia afro-brasileira em linguagem infantil e integra o acervo oficial da rede municipal. A filha do policial havia desenhado Iansã, orixá associada aos ventos e tempestades.
Após a repercussão, moradores dos bairros próximos organizaram um ato em defesa da escola e de práticas antirracistas, marcado para o dia 25. A Polícia Militar informou que abriu procedimento para apurar a conduta dos agentes, incluindo a análise das imagens das câmeras corporais. A direção da escola registrou boletim de ocorrência por ameaça contra o pai da criança, que não foi localizado pela reportagem.
O caso reacende o debate sobre racismo religioso, liberdade pedagógica e a aplicação das leis que garantem o ensino da cultura afro-brasileira nas escolas públicas.