
O deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) protagonizou uma tarde de tensão na Câmara dos Deputados nesta terça-feira (9), ao ocupar a cadeira da Presidência da Casa em protesto contra a decisão do presidente Hugo Motta (Republicanos-PB) de colocar em votação, nesta quarta (10), o processo de cassação contra ele. Glauber permaneceu sentado na Mesa Diretora por mais de uma hora, afirmando que ficaria ali “até o limite de suas forças”. O ato desencadeou um conflito que terminou com a retirada forçada do parlamentar, expulsão de jornalistas e agressões registradas por deputados.
O episódio ocorreu um dia antes da análise formal do pedido de cassação. O deputado é acusado de empurrar e chutar o influenciador bolsonarista Gabriel Costenaro, do MBL, dentro da Câmara, em abril deste ano — ação que se arrastou até a área externa do Congresso e motivou a abertura do processo disciplinar.
A confusão começou quando Glauber assumiu, sem autorização, a cadeira de presidente no plenário. Deputados, policiais legislativos e o secretário-geral da Mesa, Lucas Ribeiro Almeida Júnior, tentaram convencê-lo a se retirar, sem sucesso. A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP), esposa do parlamentar, também discutiu com colegas que questionaram a estratégia do ato.
A atitude remeteu à ocupação da Mesa feita por deputados bolsonaristas no ano passado, que tentou impedir uma sessão comandada pelo então presidente da Câmara. Ao contrário daquele episódio, porém, desta vez a Casa ordenou que jornalistas deixassem o plenário, impedindo a cobertura contínua.
Com a determinação de retirar Glauber à força, a transmissão oficial da Câmara caiu subitamente, e a imprensa foi retirada do plenário. Apenas vídeos gravados por parlamentares registraram o momento da expulsão.
No Salão Verde, jornalistas relataram empurrões e agressões por parte de policiais legislativos, que também teriam avançado contra deputados que tentavam acompanhar o ato. Parlamentares de esquerda afirmam que foram agredidos Sâmia Bomfim (PSOL-SP), Dorinaldo Malafaia (PDT-AP), Rogério Correia (PT-MG) e Célia Xakriabá (PSOL-MG). Todos fizeram exame de corpo de delito e registraram boletins de ocorrência.
A assessoria de Hugo Motta não explicou quem ordenou a interrupção da transmissão nem o afastamento da imprensa. Nas redes sociais, o presidente da Câmara disse apenas ter determinado apuração sobre “possíveis excessos”.
A reação foi imediata. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), o Sindicato dos Jornalistas do DF, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), a Associação Nacional de Jornais (ANJ) e a a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) divulgaram notas denunciando grave violação à liberdade de imprensa. As entidades classificaram o episódio como “autoritarismo”, “cerceamento ao trabalho jornalístico” e “limitação ao direito da população de ser informada”.
Jornalistas como Guilherme Balza (TV Globo) e Carolina Nogueira (UOL) relataram ter sido empurrados por policiais legislativos durante o tumulto. O bloqueio à cobertura e o corte de sinal foram considerados incompatíveis com a transparência que se espera do Legislativo.
Enquanto isso, o processo de cassação de Glauber Braga deve ser analisado nesta quarta (10), em meio à escalada de tensões políticas dentro da Câmara e ao debate sobre a condução de Hugo Motta diante da crise.