
O Congresso do México aprovou, nesta quarta-feira (10), o aumento das tarifas de importação para produtos originários de 11 países com os quais não mantém acordos comerciais — entre eles Brasil e China. A proposta, enviada pela presidente Claudia Sheinbaum, deve ser sancionada e entrar em vigor em 1º de janeiro de 2026.
A medida foi aprovada no Senado por 76 votos a favor, 5 contrários e 35 abstenções, após já ter passado pela Câmara dos Deputados no dia anterior. O projeto foi votado em meio à crescente pressão comercial do governo dos Estados Unidos e às negociações para renovação do Tratado de Livre Comércio da América do Norte (T-MEC).
A nova política tarifária afeta 1.463 classificações tarifárias em setores como automotivo, têxtil, vestuário, aço, plásticos, móveis, eletrodomésticos e calçados. Em 316 dessas categorias, atualmente não há cobrança de imposto.
Embora a versão inicial da proposta previsse tarifas de até 50% para diversos produtos, o texto aprovado reduziu a maior parte das alíquotas para patamares entre 20% e 35%. A tarifa máxima de 50% foi mantida sobretudo para automóveis, visando atingir o mercado chinês — responsável por 20% das vendas de veículos no México em novembro, segundo a Associação Mexicana de Distribuidores Automotivos.
O México foi, no primeiro semestre, o maior importador de carros fabricados na China. A decisão deve alterar significativamente essa dinâmica.
Segundo cálculos do governo, as importações impactadas somam US$ 52 bilhões, equivalente a 8,6% do total adquirido do exterior. A expectativa é preservar cerca de 320 mil empregos e elevar a arrecadação em US$ 2,5 bilhões em 2026.
A proposta surge em meio à retomada das pressões do presidente americano Donald Trump, que acusa o México de permitir a entrada de produtos chineses nos EUA e defende uma política mais dura contra o narcotráfico. A Casa Branca também elevou seu nível de exigência para as renegociações do T-MEC, acordos que definem as condições preferenciais de comércio entre EUA, México e Canadá.
Trump tem reiterado que considera empregar força militar contra cartéis mexicanos — sinalização vista por especialistas como parte de uma estratégia de pressão para obter concessões comerciais.
Para críticos da oposição mexicana, o pacote tarifário foi elaborado “às pressas” e representa uma resposta direta às exigências de Washington, arriscando aumentar a inflação doméstica.
“Essas tarifas coincidem com uma onda de restrições comerciais nos Estados Unidos. A questão é se o México está definindo sua própria política comercial ou apenas reagindo às ordens de Washington”, disse o senador oposicionista Mario Humberto Vázquez (PAN).
A presidente Sheinbaum rejeita essa interpretação e afirma que a medida integra o Plano México, projeto que busca fortalecer a indústria nacional e reduzir a dependência de importações.
A China, segunda maior fornecedora de produtos ao México, criticou duramente a decisão, classificando-a como prejudicial ao comércio global e pedindo que o governo mexicano “corrija práticas protecionistas”. Uma investigação chinesa sobre barreiras comerciais envolvendo o México permanece aberta.
No ano passado, a China exportou US$ 130 bilhões ao parceiro latino-americano — atrás apenas dos EUA, que venderam US$ 334 bilhões.
Para o Brasil, o impacto é limitado, segundo a Abit (Associação Brasileira da Indústria Têxtil). O México é apenas o nono destino das exportações brasileiras do setor, que somaram US$ 28 milhões entre janeiro e novembro, queda de 22% frente ao ano anterior.
“Não é um destino muito representativo. Mesmo assim, estamos atentos porque essas medidas mostram uma tendência global de maior proteção comercial”, afirmou o diretor-superintendente da Abit, Fernando Pimentel.