Internacional Internacional
Lula conversa com Maduro sobre escalada militar dos EUA contra a Venezuela
Presidente brasileiro tenta restabelecer canais diplomáticos e defende solução política para evitar conflito na América do Sul
12/12/2025 15h09
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conversou por telefone, na semana passada, com o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, sobre a escalada militar dos Estados Unidos contra o país vizinho. O contato ocorre em meio ao aumento das tensões no Caribe e a medidas recentes do governo norte-americano que atingem diretamente a economia venezuelana.

A ligação foi a primeira entre Lula e Maduro desde a eleição venezuelana do ano passado, marcada por denúncias de fraude feitas pela oposição ao regime chavista. A informação foi revelada pelo jornal O Globo e confirmada pela Folha de S.Paulo.

 

Tentativa de reconstrução diplomática

De acordo com pessoas que tiveram conhecimento da conversa, o objetivo do presidente brasileiro foi restabelecer pontes com o governo venezuelano em um dos momentos mais delicados do cenário geopolítico sul-americano. Auxiliares de Lula avaliam que a retomada de laços de confiança é estratégica caso o Brasil seja chamado a desempenhar algum papel de mediação entre Caracas e Washington.

A movimentação ocorre diante do aumento da presença militar dos Estados Unidos na região do Caribe, que inclui o deslocamento de navios de guerra —entre eles um porta-aviões de propulsão nuclear— e ações contra embarcações próximas às águas territoriais venezuelanas. Segundo autoridades venezuelanas, mais de 80 pessoas morreram em ataques a barcos sob a justificativa de combate ao narcotráfico, sem que Washington tenha apresentado provas públicas dessas acusações.

 

Contato também com Trump

Na mesma semana, Lula também conversou por telefone com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Segundo o Palácio do Planalto, o diálogo abordou cooperação no enfrentamento ao crime organizado, mas o presidente brasileiro aproveitou a conversa para alertar sobre os riscos de uma intervenção militar na Venezuela.

Lula argumentou que uma ação armada poderia gerar consequências graves para a região, como o aumento do fluxo de refugiados e o fortalecimento de organizações criminosas transnacionais.

Em evento realizado nesta quinta-feira (11), em Belo Horizonte (MG), o presidente mencionou a conversa com Trump e reiterou sua posição contrária a soluções militares.

“Eu acredito mais no poder da palavra do que no poder da arma. Vamos tentar utilizar a palavra como instrumento de convencimento para fazer a coisa certa”, afirmou Lula. Ele também criticou o que chamou de postura unilateral do governo norte-americano. “O unilateralismo é quando o mais forte determina o que os outros têm que fazer. É sempre a lei do mais forte.”

 

Escalada recente e impacto econômico

A crise se intensificou após os Estados Unidos capturarem, na quarta-feira (10), um petroleiro venezuelano em águas próximas ao país. A Casa Branca informou que o navio será levado a um porto americano e que a carga será confiscada. O Departamento do Tesouro dos EUA também anunciou sanções contra outros seis petroleiros que exportam petróleo venezuelano, elevando o risco de um cerco ainda maior às exportações do país.

A Venezuela possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo e depende fortemente da exportação da commodity, tendo a China como principal destino. A apreensão do navio foi a primeira interferência direta dos EUA na principal fonte de arrecadação do governo de Caracas.

Autoridades americanas afirmam que a operação foi conduzida pelo FBI, pelo Departamento de Segurança Interna e pelo Departamento de Defesa, sob a alegação de que o petróleo serviria para financiar atividades ilícitas. A indústria petrolífera venezuelana está sob sanções há anos, embora empresas como a Chevron mantenham autorização para operar no país em parceria com a estatal PDVSA.

 

Reação da Venezuela

O governo venezuelano reagiu com dureza à apreensão do petroleiro. O presidente Nicolás Maduro exigiu o fim do que classificou como “intervenção ilegal” dos Estados Unidos, enquanto o chanceler Yván Gil descreveu a ação como “ato de pirataria internacional”.

“O objetivo sempre foi o mesmo: ficar com o petróleo venezuelano”, afirmou Gil em nota oficial.

Diante do cenário, Lula reforçou a defesa de que a América Latina deve permanecer como uma zona de paz e que a diplomacia precisa ser o principal instrumento para evitar um conflito de maiores proporções na região.