Agricultores franceses intensificaram, nesta sexta-feira (19), os protestos contra o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, com manifestações em diferentes cidades do país e um ato simbólico em frente à casa de praia do presidente Emmanuel Macron, na cidade litorânea de Le Touquet, no norte da França.
Dezenas de manifestantes despejaram sacos de esterco, pneus, galhos e legumes nas proximidades da residência presidencial para demonstrar oposição ao tratado. Um caixão com a inscrição “Não ao Mercosul” também foi colocado diante do imóvel, que era monitorado por forças de segurança.
Segundo representantes do setor, os protestos refletem insatisfação com a política agrícola europeia e com o possível impacto do acordo UE–Mercosul sobre os produtores locais. Agricultores temem que a abertura comercial facilite a entrada de carne bovina, arroz, mel e soja sul-americanos, considerados mais competitivos por seguirem regras ambientais e sanitárias menos rígidas do que as exigidas na Europa.
“Estamos protestando há dois anos e nada muda. Os produtos são importados sem restrições regulatórias e competem conosco a preços impossíveis de igualar”, afirmou o agricultor Marc Delaporte. Para Benoît Hédin, do sindicato FDSEA, o protesto simboliza um “retrocesso da política europeia”.
Além de Le Touquet, houve manifestações em outras cidades. Em Avignon, no sul da França, agricultores jogaram batatas em prédios públicos. Diante da nova onda de atos, o governo francês pediu uma trégua de Natal, alertando para os impactos de bloqueios durante o período de férias.
O primeiro-ministro Sébastien Lecornu se reuniu nesta sexta-feira com lideranças dos principais sindicatos agrícolas. O presidente da FNSEA, maior entidade do setor no país, Arnaud Rousseau, afirmou que o governo se comprometeu a enviar uma carta com respostas às reivindicações do campo até o fim do dia.
“Essa carta será decisiva para avaliarmos a suspensão ou não dos protestos”, disse Rousseau.
Mesmo assim, o FNSEA afirmou que o adiamento da assinatura do acordo não é suficiente. “O Mercosul continua sendo um NÃO. Vamos nos manter mobilizados”, declarou a entidade em nota publicada nas redes sociais.
Em meio à pressão francesa — reforçada nos últimos dias pela Itália — a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que a assinatura do acordo UE–Mercosul, prevista inicialmente para este sábado (20), durante a cúpula do bloco em Foz do Iguaçu (PR), foi adiada para janeiro.
Segundo von der Leyen, a decisão ocorreu após um pedido da Itália por mais tempo para análise do texto, o que impediu a formação de apoio suficiente neste momento. Ainda assim, ela afirmou estar confiante de que haverá maioria entre os países-membros da UE para aprovar o acordo nas próximas semanas.
O tratado, negociado há mais de duas décadas e concluído em dezembro de 2024, envolve Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e prevê a redução de tarifas comerciais entre os blocos, ampliando o acesso de produtos europeus e sul-americanos aos respectivos mercados.