
O Irã viveu nesta quinta-feira (8) o dia mais violento desde o início da atual onda de protestos contra o regime islâmico. Organizações de direitos humanos acusam as forças de segurança de atirar contra manifestantes em diversas regiões do país, provocando dezenas de mortes em meio a um apagão nacional da internet.
A ONG Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, afirma que ao menos 45 pessoas morreram, entre elas oito menores de idade. Apenas na quarta-feira (7), considerada o dia mais sangrento até agora, foram confirmadas 13 mortes. Segundo a entidade, centenas de pessoas ficaram feridas e mais de 2 mil foram presas desde o início das manifestações.
Os atos começaram no fim de dezembro, em Teerã, após o fechamento de um mercado popular motivado pelo colapso da moeda iraniana, o rial, que atingiu mínimas históricas. A crise econômica se aprofundou com inflação acima de 40%, desemprego e os efeitos prolongados das sanções internacionais, agravados pela recente guerra contra Israel, em junho.
Desde então, as manifestações se espalharam rapidamente. A agência Human Rights Activists News Agency (Hrana) informou que houve protestos em 348 localidades, cobrindo todas as 31 províncias do Irã. Em várias cidades, comércios e bazares fecharam as portas, como em Tabriz e Bandar Abbas, importante polo da indústria petrolífera.
Imagens verificadas por agências internacionais mostram multidões em avenidas centrais de Teerã, carros incendiados, prédios públicos vandalizados e confrontos diretos com as forças de segurança.
Grupos de direitos humanos denunciam o uso de munição real, invasão de hospitais para prender feridos e repressão indiscriminada contra civis. A Anistia Internacional acusou o governo iraniano de empregar “força ilegal” contra a população.
A Hrana divulgou vídeos que, segundo a organização, mostram agentes de segurança atirando contra manifestantes na cidade de Kermanshah. O regime, por sua vez, confirmou a morte de um policial, esfaqueado durante confrontos a oeste de Teerã.
Os protestos já são considerados os maiores desde as manifestações de 2022 e 2023, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini, jovem que morreu sob custódia policial após ser presa por suposta violação do código de vestimenta imposto às mulheres.
A ONG de monitoramento Netblocks informou que o Irã entrou em um apagão quase total da internet. Dados da empresa Cloudflare apontam uma queda de cerca de 90% no tráfego online, com acesso restrito apenas a órgãos do governo e forças de segurança.
Cortes semelhantes já haviam sido adotados pelo regime em protestos anteriores, como estratégia para dificultar a organização dos atos e a divulgação de informações para o exterior.
Antes do bloqueio, o opositor exilado Reza Pahlavi, filho do xá deposto em 1979, alertou que o governo poderia interromper a internet para conter as manifestações e convocou protestos em larga escala.
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, pediu moderação às forças de segurança e afirmou que é preciso distinguir manifestantes motivados pela crise econômica de “desordeiros”. A porta-voz do governo, Fatemeh Mohajerani, chegou a dizer que os manifestantes são “nossos filhos” e defendeu o diálogo.
Já o tom do Judiciário foi mais duro. O chefe da instituição, Gholamhosein Mohseni Ejei, afirmou que “não haverá clemência” para quem agir contra a República Islâmica, acusando Estados Unidos e Israel de estimularem a instabilidade.
O líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, declarou nesta sexta-feira (9) que o regime “não vai recuar” e chamou os manifestantes de “vândalos” e “sabotadores”, acusando-os de agir para agradar ao presidente dos EUA, Donald Trump.
Trump afirmou nesta quinta-feira que os Estados Unidos podem reagir com força caso o regime iraniano “comece a matar pessoas”. Segundo ele, Washington “atingirá o Irã duramente” se a repressão continuar.
A escalada da violência também gerou reações na Europa. O ministro das Relações Exteriores da Alemanha, Johann Wadephul, condenou o “uso excessivo da força”, enquanto França, Reino Unido e Alemanha divulgaram nota conjunta pedindo que o Irã respeite a liberdade de expressão e o direito à manifestação pacífica.
Com o país praticamente isolado do mundo por causa do apagão da internet, organizações de direitos humanos alertam que o número real de mortos pode ser ainda maior do que o divulgado até agora.