O Irã declarou nesta segunda-feira (12) que segue aberto ao diálogo com os Estados Unidos, mesmo após o presidente Donald Trump ameaçar adotar medidas militares em resposta à repressão violenta contra protestos no país. As manifestações, iniciadas no fim de dezembro, representam um dos maiores desafios ao regime iraniano desde a Revolução Islâmica de 1979.
A posição oficial foi apresentada pelo porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, um dia depois de Trump afirmar que avalia “opções duras” contra Teerã caso a violência continue. Segundo Baghaei, os canais diplomáticos seguem ativos e incluem contatos diretos entre o chanceler iraniano Abbas Araqchi e o enviado especial dos EUA, Steve Witkoff, além da mediação tradicional da Suíça.
De acordo com a chancelaria iraniana, o país mantém diálogo mesmo diante das ameaças. “A República Islâmica nunca abandonou a mesa de negociações”, afirmou Baghaei, ao acrescentar que mensagens contraditórias vindas de Washington colocam em dúvida a real disposição dos EUA para uma solução diplomática.
Araqchi reforçou o discurso durante encontro com diplomatas estrangeiros em Teerã, afirmando que o Irã está preparado tanto para negociar quanto para reagir militarmente, caso seja atacado.
No domingo (11), Trump declarou que o Irã teria procurado os Estados Unidos para discutir o programa nuclear e que uma reunião estaria sendo organizada. Ao mesmo tempo, o presidente americano disse que pode ser necessário “agir antes” caso a repressão aos protestos continue.
Segundo informações do The Wall Street Journal, a Casa Branca avalia um leque de opções que inclui ataques militares, ações cibernéticas secretas, ampliação de sanções e apoio tecnológico à oposição iraniana.
Autoridades iranianas reagiram com tom duro. O presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, alertou que qualquer ataque ao Irã tornaria alvos legítimos Israel, além de bases e navios americanos na região. Ele afirmou que o país enfrenta uma “guerra contra terroristas” e prometeu resposta severa a uma eventual ofensiva dos EUA.
As declarações ocorrem em meio a manifestações pró-governo convocadas pelo regime e transmitidas pela TV estatal, enquanto líderes iranianos acusam os Estados Unidos e Israel de estimularem a instabilidade interna.
Segundo a ONG HRANA, com sede nos EUA, a repressão já matou mais de 500 pessoas desde o início dos protestos, incluindo manifestantes e membros das forças de segurança. Mais de 10 mil pessoas teriam sido presas. O governo iraniano não divulga números oficiais.
Desde quinta-feira (8), o país enfrenta um bloqueio nacional da internet, o que dificulta a comunicação da população e a verificação independente dos dados. Organizações de direitos humanos afirmam que o apagão impede a divulgação em tempo real da situação nas ruas.
A crise ocorre em um momento de fragilidade para Teerã no cenário internacional. Aliados regionais sofreram derrotas recentes, e a Rússia —parceira estratégica— segue envolvida na guerra da Ucrânia. Em junho, Irã, Israel e EUA já haviam se enfrentado em uma guerra aérea de 12 dias, que incluiu ataques a instalações nucleares iranianas.
Apesar do discurso oficial de abertura ao diálogo, o clima permanece de forte tensão, com riscos crescentes de escalada militar caso a repressão aos protestos continue e as ameaças se concretizem.
Em tom de confronto, o líder supremo Ali Khamenei publicou uma charge comparando Trump a reis históricos e lendários, como os faraós do antigo Egito, dizendo: “Esse sujeito que se senta aí com arrogância e orgulho, julgando o mundo inteiro, deveria saber que, geralmente, os tiranos e arrogantes do mundo foram depostos no auge do seu orgulho; este também será deposto” e alertou que o país reagirá a qualquer ataque.