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Trump rompe diálogo com Irã e protestos têm a execução de um jovem
Presidente dos EUA fala em “ajuda a caminho” enquanto repressão aos protestos já deixou centenas de mortos; regime iraniano havia dito que seguia aberto a negociações
13/01/2026 15h16
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (13) que cancelou qualquer diálogo com autoridades do Irã e convocou manifestantes a “tomarem as instituições”, em meio à maior onda de protestos no país em décadas e a uma repressão que já deixou centenas de mortos, segundo organizações de direitos humanos.

A declaração foi feita em publicação na rede Truth Social, na qual Trump elevou o tom contra o regime iraniano.

Patriotas iranianos, CONTINUEM A PROTESTAR — TOMEM SUAS INSTITUIÇÕES!!! Guardem os nomes dos assassinos e abusadores. Eles pagarão um grande preço. Cancelei todas as reuniões com autoridades iranianas até que essa matança sem sentido de manifestantes ACABE. AJUDA ESTÁ A CAMINHO”, escreveu o presidente americano.

A fala ocorre um dia depois de Teerã afirmar oficialmente que mantinha canais de diálogo abertos com Washington, apesar das ameaças recentes de Trump e do agravamento da repressão interna.

 

Primeira execução desde o início dos protestos

Organizações de direitos humanos afirmam que o regime iraniano marcou para esta quarta-feira (14) a primeira execução de um manifestante desde o início dos protestos, em dezembro. Segundo a ONG Hengaw, com sede na Noruega, o condenado é Erfan Soltani, de 26 anos, preso na semana passada após participar de atos na cidade de Fardis, próxima a Teerã.

De acordo com a entidade, a família de Soltani não teve acesso às informações completas sobre as acusações nem sobre o andamento do processo judicial, o que levanta questionamentos sobre garantias legais mínimas.

 

Repressão amplia risco de escalada internacional

A postura de Trump aumentou temores de uma nova intervenção militar americana contra o Irã, pouco mais de uma semana após os EUA realizarem uma operação militar na Venezuela que resultou na captura de Nicolás Maduro.

Autoridades do Qatar, que atuam como mediadores regionais, alertaram nesta terça que uma escalada militar entre Washington e Teerã teria “consequências graves” para todo o Oriente Médio.

Segundo a rede CBS News, Trump já foi informado por assessores sobre uma ampla gama de opções contra o Irã, que vão desde operações cibernéticas e psicológicas até ataques com mísseis de longo alcance.

A atual onda de manifestações é considerada um dos maiores desafios ao regime teocrático desde a Revolução Islâmica de 1979. Os atos começaram motivados pela crise econômica e pela desvalorização do rial, mas rapidamente passaram a exigir o fim do regime dos aiatolás.

A ONG HRANA, com sede nos EUA, afirma que mais de 500 pessoas morreram desde 28 de dezembro, incluindo manifestantes e agentes de segurança, além de mais de 10 mil prisões. Um funcionário do próprio governo iraniano disse à agência Reuters que o número total de mortos pode chegar a cerca de 2.000, atribuindo as mortes a “terroristas” — versão contestada por entidades independentes.

O ONU, por meio do alto-comissário de Direitos Humanos, Volker Türk, declarou estar “horrorizada” com o nível da repressão. “Esse ciclo de violência não pode continuar. As demandas do povo iraniano por justiça e igualdade precisam ser ouvidas”, afirmou.

A apuração dos fatos é dificultada por um apagão quase total das comunicações imposto pelo regime. Segundo a ONG Netblocks, o bloqueio da internet já ultrapassa 100 horas. Um jornalista da AFP relatou que, embora a internet siga instável, chamadas telefônicas internacionais começaram a ser restabelecidas nesta terça.

 

Reação do regime e tensão diplomática

O líder supremo do Irã, Ali Khamenei, reagiu às declarações de Trump com retórica agressiva. Sua conta oficial publicou uma charge retratando o presidente americano como um sarcófago em ruínas, acompanhada da frase: “Ele também será derrubado”.

O governo iraniano acusa Estados Unidos e Israel de fomentarem os protestos e, ao mesmo tempo, convoca manifestações pró-regime para demonstrar força política.

Países europeus como França, Alemanha e Itália condenaram a repressão e convocaram diplomatas iranianos para prestar esclarecimentos. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, classificou os acontecimentos no Irã como “repulsivos”.

Enquanto isso, a combinação de protestos massivos, repressão letal, ameaça de execuções e retórica externa agressiva coloca o Irã no centro de uma crise que mistura instabilidade interna e risco crescente de confronto internacional.