A família de Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, está no centro de um projeto bilionário de créditos de carbono que passou a integrar a chamada “ciranda dos negócios” investigada por autoridades. Documentos indicam que empresas controladas pelo pai e pela irmã do banqueiro detinham a maior parte dos ativos ambientais usados para inflar artificialmente fundos de investimento e retroalimentar operações financeiras ligadas ao banco.
O vínculo familiar aparece por meio da Alliance Participações, sociedade presidida por Henrique Moura Vorcaro e dirigida por Natália Bueno Vorcaro Zettel, pai e irmã de Daniel Vorcaro. A empresa passou a deter 80% das chamadas “unidades de estoque de carbono” associadas à Fazenda Floresta Amazônica, localizada em Apuí (AM).
Segundo contratos e laudos técnicos, a Alliance firmou em agosto de 2022 um acordo com o fazendeiro Marco Antônio de Melo e o intermediário José Antônio Ramos Bittencourt, garantindo participação majoritária nos créditos estimados da área. Esses ativos, porém, não tinham certificação ambiental reconhecida nem preço de mercado transparente.
Mesmo assim, as estimativas de carbono foram usadas para reavaliar empresas e fundos, inflando patrimônios em mais de R$ 45,5 bilhões. As companhias Golden Green e Global Carbon, controladas por fundos administrados pela Reag Investimentos, passaram a valer dezenas de bilhões de reais sem jamais terem comercializado um único crédito.
Esse patrimônio financeiro inflado não representava dinheiro disponível, mas foi essencial para sustentar a ciranda dos negócios: os valores artificiais permitiam ampliar limites de crédito, justificar novas operações, reorganizar fundos e manter a aparência de solidez financeira que, segundo investigadores, ajudou o Banco Master a seguir captando recursos no mercado, inclusive com a venda de CDBs.
As investigações apontam ainda que a área usada como base do projeto de carbono é terra pública da União, destinada à reforma agrária, o que inviabiliza legalmente sua exploração privada. Mesmo assim, auditorias e estruturas financeiras chancelaram os ativos com base apenas em informações declaradas pelas próprias empresas, sem verificação concreta da titularidade da terra ou da viabilidade real dos créditos.
O carbono atribuído à Alliance acabou incorporado à teia de empresas e fundos que alimentaram a engrenagem financeira investigada na Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro e uso sistemático de fundos para inflar patrimônios e retroalimentar a estrutura do Banco Master.
Henrique e Natália Vorcaro afirmam não ter envolvimento em operações ilícitas. Daniel Vorcaro nega participação no projeto de carbono. O intermediário José Antônio Ramos Bittencourt declarou que o projeto foi interrompido ainda em fase preliminar após questionamentos fundiários e citou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) em negociação com o Incra. A Reag informou que não comenta investigações em andamento.
As apurações seguem em curso e buscam esclarecer se o projeto de créditos de carbono foi apenas um episódio isolado ou parte estruturante da ciranda de negócios que sustentou artificialmente fundos, empresas e operações financeiras ligadas ao Banco Master.