O cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã, aceito por Donald Trump e também referendado por Israel, entrou em forte instabilidade nesta quarta-feira (8), poucas horas depois de entrar em vigor. O motivo foi a sequência de fatos que se seguiu ao anúncio da trégua: Israel lançou a maior onda de bombardeios da guerra contra o Líbano, o Irã voltou a interromper o trânsito no estreito de Hormuz e o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que o cessar-fogo foi rompido com ataques a ilhas iranianas.
A trégua havia sido apresentada como uma pausa para abrir caminho a negociações mediadas pelo Paquistão. Trump afirmou que concordou em adiar os ataques americanos contra o Irã por duas semanas, desde que houvesse reabertura de Hormuz e interrupção das hostilidades iranianas. Israel também declarou apoio ao plano americano, mas já com a ressalva de que o entendimento não se aplicaria ao front libanês.
O ponto central da crise foi a divergência sobre o alcance do cessar-fogo. O Paquistão, mediador da negociação, afirmou que a pausa deveria valer para todas as frentes, inclusive o Líbano. Já Trump declarou que o Líbano não faz parte do acordo, classificando o conflito envolvendo Israel e Hezbollah como uma frente separada. A posição foi confirmada também pela Casa Branca, segundo agências internacionais.
Esse desencontro abriu espaço para a continuação das operações israelenses. O gabinete de Benjamin Netanyahu informou que Israel aceitou a pausa nas ações contra o Irã, mas não incluiu o território libanês nesse entendimento. Com isso, o cessar-fogo nasceu sob versões contraditórias entre os mediadores, Washington, Teerã e Tel Aviv.
Ao longo desta quarta-feira, Israel realizou a maior ofensiva aérea da guerra contra o Líbano, atingindo mais de 100 alvos ligados ao Hezbollah em Beirute, no Vale do Bekaa e no sul do país. Segundo a Reuters, ao menos 112 pessoas morreram e 837 ficaram feridas; outras fontes mencionam números ainda mais altos ao longo do dia. O governo libanês acusou Israel de atingir áreas densamente povoadas e de sabotar os esforços diplomáticos.
Foi nesse contexto que o presidente iraniano Masoud Pezeshkian disse que o cessar-fogo havia sido rompido dentro do território iraniano, ao confirmar bombardeios nas ilhas de Lavan e Siri. Teerã também prometeu punir Israel pelos ataques ao Hezbollah, afirmando que os bombardeios ao Líbano violaram a trégua anunciada na véspera.
Outro desdobramento decisivo foi o estreito de Hormuz. Depois de uma sinalização inicial de reabertura com o anúncio do cessar-fogo, o Irã voltou a bloquear a passagem de petroleiros e outros navios, em resposta aos ataques israelenses no Líbano. A medida foi registrada por agências internacionais e recolocou em risco o fluxo de uma rota por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo.
A retomada do bloqueio aprofundou a fragilidade do acordo. Enquanto a Casa Branca sustentava que o tráfego começava a ser retomado, monitores marítimos e relatos de mercado apontavam movimento ainda muito reduzido e incerteza entre armadores. Com isso, a trégua passou a depender não só da contenção militar entre EUA e Irã, mas também de uma definição sobre o Líbano e da normalização efetiva de Hormuz — dois pontos que, até agora, seguem em aberto.