Um museu em Berlim virou palco de uma das instalações mais provocativas da arte contemporânea recente. Na Neue Nationalgalerie, cães-robôs com cabeças hiper-realistas de bilionários da tecnologia circulam pelo espaço e, de forma simbólica, “expelêm” imagens produzidas por inteligência artificial.
A obra, intitulada Regular Animals, é assinada pelo artista americano Beeple e propõe uma reflexão direta sobre o papel das grandes plataformas digitais na construção da realidade contemporânea.
Os robôs utilizam câmeras para capturar imagens do ambiente ao redor. Em seguida, um sistema de inteligência artificial transforma essas imagens com base na “visão de mundo” associada à personalidade representada — como Elon Musk, Mark Zuckerberg e Jeff Bezos.
O resultado é impresso e liberado pelos robôs em uma ação performática que mistura humor, desconforto e crítica. Segundo os organizadores, a proposta é evidenciar como algoritmos e plataformas moldam o que as pessoas veem, consomem e interpretam no dia a dia.
A instalação também inclui outras figuras, como o líder norte-coreano Kim Jong-un e artistas como Pablo Picasso e Andy Warhol — cada um com estilos visuais característicos recriados pela IA.
Beeple sustenta que, historicamente, artistas eram responsáveis por influenciar a percepção coletiva da sociedade. Hoje, segundo ele, esse papel foi assumido por executivos de tecnologia, que controlam fluxos de informação por meio de códigos e plataformas digitais.
A obra reforça esse argumento ao transformar líderes das chamadas “big techs” em figuras quase caricatas, responsáveis por “processar” e “devolver” a realidade ao público.
A instalação foi apresentada originalmente na Art Basel Miami Beach 2025, onde o artista distribuiu imagens produzidas pelos robôs acompanhadas de certificados irônicos que as classificavam como “100% orgânicas”.
Algumas dessas imagens incluíam códigos QR que davam acesso a NFTs, permitindo que o público monetizasse a arte digital.
Beeple é hoje um dos artistas vivos mais valorizados do mundo. Em 2021, ele entrou para a história ao vender uma obra digital por mais de US$ 69 milhões em um leilão da Christie's — marco que consolidou o mercado de NFTs na arte contemporânea.
A instalação em Berlim reforça a linha crítica do artista, que utiliza tecnologia e cultura digital para questionar o poder, a influência e os limites das plataformas na sociedade atual.