Um relatório de uma organização de direitos humanos aponta que a Coreia do Norte tem ampliado o uso da pena de morte para punir cidadãos acusados de consumir ou compartilhar conteúdos culturais estrangeiros, como filmes sul-coreanos, músicas de K-pop e produções americanas.
O estudo, divulgado pelo Transitional Justice Working Group (TJWG), ouviu 880 desertores norte-coreanos e identificou ao menos 153 execuções entre janeiro de 2020 e dezembro de 2024 — um aumento de cerca de 250% em relação ao período anterior.
Segundo o relatório, o crescimento é ainda mais expressivo em casos relacionados à cultura estrangeira, religião e práticas consideradas “supersticiosas”. Ao menos 38 pessoas foram condenadas à morte por esses motivos no período recente, contra apenas sete no intervalo anterior.
Historicamente, crimes como homicídio eram os mais associados à pena capital no país. No entanto, a pesquisa indica que o foco do regime passou a incluir o acesso a conteúdos externos, vistos como ameaça ideológica.
Especialistas apontam que essa mudança reflete uma estratégia do governo para reforçar o controle social e conter o avanço de informações vindas do exterior.
Apesar da repressão, analistas afirmam que conteúdos estrangeiros continuam circulando no país. Segundo o especialista Greg Scarlatoiu, filhos de membros da elite norte-coreana, especialmente em áreas urbanas, têm acesso frequente a produções sul-coreanas e americanas, mesmo sob risco de punição severa.
Casos relatados incluem execuções públicas. Em 2022, por exemplo, um casal foi executado após assistir e compartilhar conteúdos sul-coreanos. De acordo com relatos, centenas de pessoas foram obrigadas a assistir à execução, e outros envolvidos foram presos.
Para especialistas, o endurecimento das punições indica uma tentativa do regime de conter o impacto da informação externa sobre a população. Segundo ativistas, conteúdos como filmes, séries e videoclipes oferecem aos norte-coreanos uma visão de mundo diferente da narrativa oficial do governo.
A repressão também se estende a práticas religiosas, como a posse de uma Bíblia, que pode levar a punições severas, incluindo a pena de morte.
Grande parte desse conteúdo chega ao país por meio de ações clandestinas, como o envio de arquivos digitais em dispositivos lançados por balões a partir da Coreia do Sul.
Recentemente, o governo sul-coreano proibiu essa prática, em uma tentativa de reduzir tensões com Pyongyang. A medida foi criticada por ativistas, que defendem o acesso à informação como ferramenta fundamental para a população norte-coreana.
O relatório reforça que, mesmo diante da repressão, o interesse por conteúdos estrangeiros continua crescendo dentro da Coreia do Norte, evidenciando desafios para o controle total exercido pelo regime.