Os governos dos Estados Unidos e do Irã voltaram a elevar o tom das provocações públicas nos últimos dias, aumentando a pressão sobre o cessar-fogo firmado entre os dois países no mês passado. As novas declarações ocorrem em meio a negociações indiretas mediadas pelo Paquistão e após novos confrontos registrados próximos ao Estreito de Ormuz, uma das regiões mais estratégicas do planeta para o transporte de petróleo.
O presidente Donald Trump intensificou as críticas ao governo iraniano durante o fim de semana ao publicar imagens geradas por inteligência artificial em suas redes sociais. Em uma das postagens, aparecem navios afundados acompanhados da legenda “Marinha iraniana”. Em outra, drones são destruídos por uma embarcação americana com a frase “tchau, tchau, drones”.
As publicações foram feitas pouco antes de Trump afirmar que a proposta apresentada por Teerã para encerrar o conflito era “totalmente inaceitável”. Nesta segunda-feira (11/5), o republicano voltou a atacar o governo iraniano e afirmou que o cessar-fogo atravessa seu momento “mais crítico”.
“É incrivelmente fraco. Depois de ler aquele lixo que eles nos enviaram, eu nem terminei de ler”, declarou o presidente americano durante coletiva de imprensa. Trump também chamou integrantes da liderança iraniana de “lunáticos” e acusou Teerã de mudar constantemente de posição durante as negociações.
As declarações provocaram reação imediata do governo iraniano e de setores ligados à Guarda Revolucionária. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, afirmou que o país está preparado para responder militarmente caso ocorram novas ofensivas.
“Nossas forças armadas estão prontas para dar uma resposta à altura de qualquer agressão”, declarou.
Já o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, classificou as exigências americanas como “excessivas” e afirmou que a proposta enviada pelo Irã aos mediadores era “responsável” e “generosa”.
Segundo autoridades iranianas, o documento entregue ao Paquistão prevê o encerramento da guerra em todas as frentes do conflito, incluindo ataques israelenses no Líbano, além da retirada de sanções americanas, desbloqueio de ativos iranianos congelados e o fim do bloqueio naval imposto pelos EUA contra embarcações ligadas ao Irã.
O principal ponto de tensão segue sendo o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo. Nas últimas semanas, a região registrou confrontos militares, bloqueios navais e ameaças envolvendo embarcações comerciais, provocando forte preocupação internacional sobre possíveis impactos no abastecimento global de energia.
O Irã mantém restrições ao tráfego marítimo no estreito e exige reconhecimento de sua soberania sobre a região como parte das negociações. Já Washington pressiona Teerã a suspender o bloqueio e aceitar limitações sobre o programa nuclear iraniano, especialmente em relação ao enriquecimento de urânio.
Segundo a imprensa norte-americana, os Estados Unidos querem que o Irã aceite uma moratória prolongada no enriquecimento nuclear e retire do país estoques de urânio altamente enriquecido. O governo iraniano rejeita essas condições.
O conflito envolvendo EUA, Irã e Israel começou em fevereiro deste ano, após ataques coordenados contra instalações estratégicas iranianas. Em abril, os dois lados concordaram com um cessar-fogo temporário mediado pelo Paquistão, mas episódios de violência continuaram sendo registrados desde então.
Apesar da trégua formal, ataques próximos ao Golfo Pérsico, confrontos indiretos com grupos aliados do Irã e o impasse sobre o Estreito de Ormuz mantiveram o cenário de instabilidade.
A crise também ganhou dimensão econômica e internacional. A Organização Marítima Internacional estima que cerca de 1.500 navios-tanque e aproximadamente 20 mil marinheiros estejam retidos na região devido às tensões no estreito.
Enquanto isso, países europeus discutem a criação de uma força-tarefa internacional para garantir a segurança da navegação na área após um eventual acordo de paz.
Internamente, o Irã também enfrenta aumento da pressão econômica. Autoridades iranianas determinaram cortes obrigatórios no consumo de energia, enquanto veículos locais relatam inflação elevada, perda do poder de compra e preocupação da população com abastecimento e medicamentos.
Nos bastidores diplomáticos, a expectativa é que avanços mais concretos nas negociações só ocorram após o encontro previsto entre Trump e o presidente da China, Xi Jinping, programado para esta semana.