Uma bolsa anunciada como sendo feita de “couro de Tyrannosaurus rex desenvolvido em laboratório” será leiloada em Paris no próximo dia 11 de junho e virou assunto no mundo da ciência e da moda.
O acessório foi apresentado no início de abril em Amsterdã, no museu Artis, ao lado de um esqueleto gigante de dinossauro. A peça foi criada pela marca polonesa de moda experimental Enfin Levé em parceria com empresas de biotecnologia.
Mais do que o design, o que chamou atenção foi a promessa do material utilizado.
“Ele tem uma personalidade diferente de tudo que já experimentamos. Denso, primitivo, funcionando segundo sua própria lógica”, publicou a marca nas redes sociais.
O projeto usa como base estudos relacionados a fósseis de Tyrannosaurus rex encontrados em Montana, nos Estados Unidos.
Há cerca de 20 anos, a paleontóloga Mary Higby Schweitzer afirmou ter encontrado fragmentos de tecido mole e proteínas preservadas dentro de ossos do dinossauro.
A descoberta causou grande repercussão porque, até então, a comunidade científica acreditava que esse tipo de material orgânico não sobreviveria por dezenas de milhões de anos.
O tema, porém, continua cercado de controvérsias.
Parte dos pesquisadores questiona se os fragmentos encontrados realmente pertenciam ao dinossauro ou se poderiam ter sido produzidos por bactérias que colonizaram os ossos ao longo do tempo.
O material usado na bolsa foi produzido pela empresa The Organoid Company, que utilizou dados dessas proteínas fósseis como ponto de partida.
Com ajuda de inteligência artificial, pesquisadores reconstruíram uma sequência proteica completa usando proteínas modernas como referência.
Segundo os responsáveis pelo projeto, proteínas de frango serviram como estrutura principal, já que aves são consideradas os parentes vivos mais próximos dos dinossauros.
Mesmo assim, especialistas afirmam que isso não significa que o material contenha elementos reais de T. rex.
O pesquisador Jan Dekker, especialista em paleoproteômica — área que estuda proteínas de fósseis —, afirmou que considera improvável a preservação de proteínas originais de dinossauros após 66 milhões de anos.
“O limite que geralmente assumimos para a vida útil das proteínas foi recentemente ampliado para cerca de 20 milhões de anos”, explicou.
Segundo ele, o produto desenvolvido estaria muito mais próximo de um material sintético baseado em proteínas de frango do que de um verdadeiro “couro de dinossauro”.
“Eles produziram colágeno sintético usando um modelo treinado principalmente em frangos. É um desenvolvimento interessante, mas não é um dinossauro”, afirmou.
Os responsáveis pela iniciativa afirmam que o objetivo era criar algo radicalmente novo para o mercado de luxo, setor que ainda demonstra resistência ao couro cultivado em laboratório.
Segundo os envolvidos, o fascínio mundial pelos dinossauros ajudaria a aproximar o público da nova tecnologia.
A peça será leiloada em Paris nas próximas semanas e deve atrair atenção tanto de colecionadores quanto da indústria da moda e da biotecnologia.
Apesar das dúvidas científicas, o caso reacendeu debates sobre os limites da engenharia genética, do marketing tecnológico e das novas formas de produção de materiais sintéticos inspirados em organismos extintos.