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EUA encerram negociação e confirmam tarifaço contra o Brasil
Decisão sobre novas taxas será anunciada nesta quarta-feira (15); governo brasileiro avalia reação com base na Lei de Reciprocidade Econômica
15/07/2026 15h25
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

Os Estados Unidos encerraram a rodada de negociações comerciais com o Brasil e devem anunciar nesta quarta-feira (15) novas tarifas sobre produtos brasileiros. O chefe do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), Jamieson Greer, informou a representantes do governo brasileiro que já entregou ao presidente Donald Trump a recomendação final sobre as medidas.

Apesar do fim das conversas antes do anúncio, o governo brasileiro recebeu sinais de que a lista de produtos livres da nova taxação pode ser ampliada. Atualmente, a estimativa é de que as tarifas atinjam cerca de 21% das exportações brasileiras para o mercado norte-americano, considerando o valor comercializado.

A decisão oficial da Casa Branca é esperada para a tarde desta quarta. Depois da divulgação, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve analisar as alíquotas e os setores afetados antes de definir uma resposta.

Brasil e EUA encerram rodada sem acordo

Na última reunião entre os dois países, realizada nesta terça-feira (14), Greer considerou encerradas as negociações e teria criticado a atuação brasileira durante as tratativas.

Representantes do Brasil rebateram a avaliação e questionaram os argumentos usados pelos Estados Unidos na investigação comercial. Entre os pontos citados está o desmatamento na Amazônia. O governo brasileiro sustenta que os dados recentes contradizem parte das acusações apresentadas pelos norte-americanos.

As autoridades também lembraram que o Brasil chegou a propor uma redução das tarifas sobre o etanol importado em troca de maior acesso do açúcar brasileiro ao mercado dos Estados Unidos. A possibilidade, segundo os negociadores, não avançou.

O USTR indicou ainda que não pretende adotar uma “lista dinâmica” de exceções. Isso significa que novos produtos não devem ser retirados gradualmente do tarifaço após o anúncio inicial.

Por outro lado, Greer teria considerado argumentos apresentados pelo governo e por empresas sobre cadeias produtivas integradas entre os dois países. Parte das exportações brasileiras envolve peças produzidas no Brasil por subsidiárias de companhias norte-americanas e enviadas às matrizes nos EUA.

A avaliação em Brasília é de que esse fator pode aumentar o número de produtos industrializados poupados das novas tarifas.

Pix e plataformas digitais travaram negociações

Três temas concentraram os principais impasses entre Brasil e Estados Unidos: o Pix, o acesso do etanol norte-americano ao mercado brasileiro e as regras aplicadas às plataformas digitais.

No caso do Pix, o governo dos EUA argumenta que o sistema criado pelo Banco Central poderia favorecer uma infraestrutura pública de pagamentos em relação a empresas privadas.

O Brasil rejeita a acusação. A posição apresentada aos norte-americanos é de que o Pix permite a participação de instituições brasileiras e estrangeiras que cumpram as regras do sistema financeiro. O governo também compara a ferramenta ao FedNow, serviço de pagamentos instantâneos do banco central dos Estados Unidos.

Outro ponto de divergência envolve decisões da Justiça brasileira relacionadas à retirada de conteúdos e suspensão de perfis em plataformas digitais. Washington questiona os impactos dessas medidas sobre empresas norte-americanas.

O Brasil afirma que as determinações são resultado de processos judiciais e atingem empresas nacionais e estrangeiras sob as mesmas regras.

Segundo integrantes do governo, os Estados Unidos também discutiram uma moratória de quatro anos para tributos e multas aplicados a plataformas digitais. A proposta foi rejeitada pelos negociadores brasileiros.

Governo prepara caminho para possível reação

Com o tarifaço considerado praticamente certo, o governo brasileiro avalia acionar novamente a Lei de Reciprocidade Econômica.

O Itamaraty poderá encaminhar um pedido à Câmara de Comércio Exterior (Camex) para analisar se as novas tarifas norte-americanas se enquadram nos critérios previstos pela legislação.

A abertura do processo não significa uma retaliação automática. O mecanismo permite ao Brasil preparar medidas equivalentes contra produtos ou serviços de outro país diante de restrições comerciais consideradas unilaterais.

A avaliação dentro do governo é de que uma resposta deve ser calculada para evitar uma escalada da disputa comercial. Ao mesmo tempo, o processo deixaria aberta a possibilidade de adoção de contramedidas caso as negociações não avancem.

Anúncio dos EUA define próximos passos

Negociadores brasileiros afirmam que as conversas avançaram nos primeiros meses, mas o posicionamento dos Estados Unidos ficou mais rígido a partir de maio. Temas considerados inegociáveis pelo Brasil passaram a ocupar o centro das discussões.

A orientação de Lula, segundo integrantes do governo, é manter os canais diplomáticos abertos e evitar que divergências ideológicas interfiram nas negociações comerciais.

Agora, a extensão do tarifaço e a lista final de produtos atingidos devem definir o próximo movimento de Brasília. O governo pode insistir nas tratativas diplomáticas ou avançar no processo previsto pela Lei de Reciprocidade Econômica.