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ONU aprova mudança em mapas para reduzir distorção dos continentes
Resolução aprovada por 164 países incentiva uso de projeções que representem melhor o tamanho real de regiões como África e América Latina; EUA foram os únicos a votar contra
04/09/2026 19h39
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou nesta sexta-feira (4), por 164 votos a favor, uma resolução que incentiva a adoção de mapas capazes de representar com maior precisão as proporções entre os continentes.

Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a proposta, que integra a iniciativa “Corrija o Mapa” e conta com apoio da União Africana.

O principal alvo é a projeção de Mercator, criada no século 16 e ainda presente em materiais escolares, meios de comunicação e diferentes plataformas digitais. Embora tenha sido desenvolvida para facilitar a navegação, ela provoca grandes distorções na representação das áreas terrestres.

Por que alguns países parecem maiores no mapa?

Na projeção de Mercator, quanto mais uma região se aproxima dos polos, maior tende a ser a distorção de sua área. Isso faz com que territórios no extremo norte, como a Groenlândia, pareçam muito maiores em relação a regiões próximas à Linha do Equador.

Um dos exemplos mais conhecidos é justamente a comparação entre a Groenlândia e a África.

Comparação da Groenlândia na projeção de Mercator e em uma projeção que preserva melhor as proporções territoriais.

A distorção também interfere na percepção do tamanho do continente africano. A África aparece significativamente menor na projeção de Mercator do que em representações cartográficas que buscam preservar as áreas reais.

Comparação do tamanho da África na projeção de Mercator e na nova representação.

Na prática, o modelo tradicional amplia visualmente áreas do Norte da Europa e da América do Norte, enquanto reduz proporcionalmente continentes e regiões mais próximos da Linha do Equador, incluindo grande parte da África e da América Latina.

Por que a ONU quer mudar essa representação?

A resolução argumenta que mapas não servem apenas para localizar países, oceanos e continentes. A maneira como o planeta é representado também influencia a percepção das pessoas sobre diferentes regiões do mundo.

Segundo a proposta, as distorções cartográficas podem produzir impactos educacionais, culturais, cognitivos e geopolíticos ao reforçar uma percepção equivocada sobre a dimensão de determinados territórios.

Por isso, o texto incentiva governos, organizações internacionais e outras instituições a adotarem projeções que representem de maneira mais proporcional as massas terrestres.

Alguns países já começaram a utilizar alternativas. O Ministério do Interior da França, por exemplo, iniciou a adoção da projeção Eckert IV, que preserva as proporções de área de maneira diferente da projeção de Mercator.

África ganha proporção mais próxima da realidade

Entre as alternativas defendidas pela iniciativa está a projeção Equal Earth, ou “Terra Igual”, adotada pela União Africana.

O modelo foi desenvolvido para preservar melhor as áreas relativas dos continentes, reduzindo a diferença entre a dimensão visual apresentada no mapa e a área real dos territórios.

Mapa-múndi na projeção Equal Earth, apoiada pela iniciativa “Corrija o Mapa”.

A mudança permite visualizar com mais clareza a dimensão territorial da África em comparação com Europa, América do Norte e outras regiões.

A aprovação da resolução, porém, não determina o abandono imediato da projeção de Mercator nem estabelece a substituição obrigatória de todos os mapas. O texto incentiva a adoção de representações consideradas mais adequadas às proporções territoriais.

Antes da votação, o ministro das Relações Exteriores de Togo, Robert Dussey, cujo país lidera a iniciativa, afirmou que a proposta representa uma defesa da “verdade científica” e que a discussão também envolve a maneira como diferentes povos e territórios são percebidos.

A resolução relaciona a iniciativa ao Pacto para o Futuro, aprovado pelos países-membros da ONU em 2024, que prevê medidas para enfrentar desigualdades históricas e estruturais.