O governo dos Estados Unidos incluiu questões relacionadas às eleições brasileiras de 2026 em uma proposta apresentada ao Brasil durante as negociações comerciais sobre o tarifaço em outubro de 2025. Entre os pontos estava a exigência de que o país não impedisse “arbitrariamente” a participação de pessoas classificadas no documento como “dissidentes políticos”.
A existência do documento foi revelada nesta quinta-feira (17) pelo jornal O Estado de S. Paulo e confirmada por outros veículos. A proposta também tratava da compra de aeronaves da Boeing por companhias brasileiras e de condições favoráveis a empresas americanas no setor de minerais críticos.
O texto foi apresentado em 16 de outubro de 2025, quando o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, estava em Washington para reuniões com o secretário de Estado americano, Marco Rubio, e o representante comercial dos Estados Unidos, Jamieson Greer.
Segundo relatos de negociadores brasileiros, o documento foi encaminhado pela área técnica do governo de Donald Trump durante os preparativos para as reuniões.
Vieira comunicou o conteúdo ao Palácio do Planalto e rejeitou os termos. Os pontos mais sensíveis não chegaram a integrar formalmente as negociações posteriores entre os dois governos.
Integrantes do Itamaraty ouvidos reservadamente pela imprensa classificaram a proposta como “bullying diplomático” e afirmaram que o documento “nasceu morto”. Essas expressões representam a avaliação de diplomatas brasileiros sobre a iniciativa americana.
O termo “dissidentes políticos” também foi rejeitado pelos representantes brasileiros. O documento não especificava nominalmente quem deveria ser enquadrado nessa classificação.
A proposta americana também incluía a compra de aeronaves comerciais produzidas nos Estados Unidos por companhias aéreas brasileiras.
O governo brasileiro considerou que não poderia assumir esse compromisso em nome de empresas privadas, que têm autonomia para escolher seus fornecedores.
Outro ponto envolvia o chamado princípio da “neutralidade competitiva” na atuação do Banco Central como regulador e supervisor dos meios eletrônicos de pagamento, tema relacionado às discussões dos Estados Unidos sobre o Pix.
Washington também propôs a eliminação de tarifas brasileiras sobre produtos americanos, entre eles etanol, produtos químicos, máquinas, equipamentos, veículos e bens de alta tecnologia.
Na área de minerais críticos, os Estados Unidos queriam que o Brasil comunicasse previamente possíveis transferências de controle de ativos e oferecesse às empresas americanas uma espécie de preferência antes de negociações com compradores de outros países.
O documento revelado agora fazia parte das discussões iniciadas durante a crise comercial entre os dois países em 2025. Segundo os relatos publicados nesta quinta-feira, as exigências políticas da primeira proposta não foram incorporadas às rodadas efetivas de negociação.
Até a publicação das informações, o Departamento de Estado americano não havia apresentado posicionamento sobre o conteúdo revelado. O Itamaraty também não havia divulgado manifestação oficial sobre o documento.