
Gravação divulgada pela revista Veja atribui ao ex-banqueiro supostos pagamentos ao Instituto Lula; Procuradoria e Polícia Federal afirmam não ter recebido esse relato
Um áudio atribuído ao ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, divulgado nesta sexta-feira (9) pela revista Veja, levanta suspeitas sobre um suposto financiamento de um documentário sobre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na gravação, Vorcaro afirma ter investido mais dinheiro na produção sobre Lula do que em Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), na qual teria aplicado mais de R$ 60 milhões.
Segundo a revista, o ex-banqueiro teria apresentado à Procuradoria-Geral da República (PGR), em junho de 2025, um anexo de proposta de delação premiada relatando o pagamento de R$ 30 milhões em espécie ao Instituto Lula, além de outra transferência de valor não especificado.
Ainda de acordo com a publicação, Vorcaro teria afirmado que os pagamentos foram solicitados por João Vaccari Neto, ex-tesoureiro do PT.
A versão, porém, é contestada por integrantes da PGR, que afirmam que o suposto financiamento do filme nunca foi mencionado nas propostas de delação apresentadas pela defesa de Vorcaro. A Polícia Federal também nega ter recebido depoimentos ou documentos com esse conteúdo.
De acordo com integrantes da Procuradoria que tiveram acesso às propostas de colaboração do ex-banqueiro, não há registro de qualquer relato sobre pagamentos ao Instituto Lula para financiar um documentário.
A revista Veja informou que o suposto anexo teria sido recusado pela PGR por falta de provas. No entanto, fontes da Procuradoria afirmaram desconhecer tanto o documento quanto os fatos atribuídos a Vorcaro na reportagem.
Os procuradores também disseram que nunca haviam ouvido a gravação divulgada pela revista.
Segundo eles, a negociação de uma delação premiada ocorre formalmente por meio dos advogados, sem contato direto com o investigado nessa etapa.
Outro ponto questionado é a linguagem do documento publicado. Integrantes da PGR afirmam que propostas desse tipo costumam ser elaboradas pelos advogados, em terceira pessoa e com linguagem técnica.
O texto atribuído a Vorcaro, por outro lado, foi apresentado em primeira pessoa e contém expressões informais, características que, segundo os procuradores, não correspondem ao padrão desses documentos.
A reportagem da Veja também menciona uma suposta articulação do Banco Master com integrantes do PT para viabilizar operações envolvendo fundos de pensão.
Entre os nomes citados estão João Vaccari Neto e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, que, à época dos fatos mencionados, ocupava a Secretaria de Relações Institucionais da Presidência.
As operações envolveriam estruturas ligadas ao Banco do Brasil, à Caixa Asset e à Previ.
Nesse ponto, a PGR apresenta uma posição diferente daquela adotada em relação ao suposto financiamento do documentário.
Segundo integrantes da Procuradoria, o episódio envolvendo os fundos de pensão foi mencionado por Vorcaro e está sob investigação.
A existência dessa apuração, no entanto, não comprova a prática de irregularidades pelas pessoas citadas.

Um dos advogados de Daniel Vorcaro, ouvido pela coluna que publicou a contestação da PGR, afirmou desconhecer o suposto relato sobre o filme de Lula.
Segundo o defensor, desde que passou a integrar a equipe jurídica do ex-banqueiro, o assunto não foi mencionado em depoimentos à Polícia Federal nem em outras declarações de Vorcaro das quais tenha conhecimento.
Em nota, a campanha do presidente Lula contestou as informações divulgadas pela revista Veja.
A equipe do candidato à reeleição afirmou que a reportagem apresentou acusações graves sem provas e classificou a publicação como uma peça de caráter eleitoral irresponsável.
A campanha também declarou que o suposto depoimento atribuído a Vorcaro não existe e anunciou que adotará medidas judiciais contra o que considera calúnias e vazamentos seletivos.
A Polícia Federal informou que Daniel Vorcaro não prestou depoimento com o conteúdo divulgado pela revista.
A corporação também afirmou não ter recebido documentos ou informações do ex-banqueiro sobre um suposto pagamento ao Instituto Lula.
Segundo a PF, as propostas de delação apresentadas pela defesa de Vorcaro não foram aceitas porque não atendiam aos requisitos legais.
A instituição informou ainda que recebeu uma notícia-crime relacionada à reportagem e encaminhou o caso à área técnica para apuração.
Até o momento, as informações apresentadas sobre o suposto financiamento do documentário são contestadas pelos órgãos citados, e não há confirmação oficial dos pagamentos atribuídos ao ex-banqueiro.
A apuração deverá esclarecer a origem da gravação, a autenticidade do material divulgado e as circunstâncias das alegações apresentadas.