
A arbitragem brasileira voltou ao centro das discussões no Campeonato Brasileiro. Depois de o Flamengo reclamar das decisões de Anderson Daronco no empate por 2 a 2 contra o Santos, desta vez foi o Fluminense quem deixou o campo questionando a atuação da arbitragem justamente em um clássico contra o Rubro-Negro.
Na vitória do Flamengo sobre o Fluminense, pela 30ª rodada, o principal motivo das reclamações tricolores aconteceu aos 31 minutos do primeiro tempo. Erick Pulgar atingiu Castillo, que sofreu um corte no joelho e precisou receber atendimento.
O árbitro Rafael Rodrigo Klein marcou a falta e apresentou cartão amarelo ao jogador do Flamengo. O VAR não recomendou revisão para possível expulsão.
Capitão do Fluminense, Samuel Xavier não escondeu a revolta após a partida.
“Parece que quando chega um terceiro time para brigar com Palmeiras e Flamengo parece que todo mundo fica ali cagado”, declarou o lateral, ao questionar o tratamento dado aos principais candidatos ao título.
Samuel também afirmou que, na avaliação dele, a permanência de Pulgar em campo interferiu diretamente no desenvolvimento da partida.
A reclamação do Fluminense ganhou ainda mais força porque a interpretação da arbitragem foi contestada também fora das quatro linhas.
O ex-árbitro e atual comentarista de arbitragem PC de Oliveira, da Globo, avaliou que houve erro no lance e que Pulgar deveria ter sido expulso.
Samuel Xavier foi além e comparou o nível da arbitragem brasileira com profissionais estrangeiros utilizados em competições internacionais, defendendo inclusive a utilização de árbitros da Premier League.
Para o jogador, falta coragem para decisões importantes em partidas de grande pressão.
Existe, porém, um componente que torna a discussão ainda mais interessante.
Na rodada anterior, quem reclamava da arbitragem era justamente o Flamengo.
No empate por 2 a 2 contra o Santos, na Vila Belmiro, jogadores rubro-negros deixaram o campo insatisfeitos com Anderson Daronco.
Entre as reclamações estava uma entrada de Barreal sobre Carrascal ainda no primeiro tempo. O técnico Leonardo Jardim afirmou após aquela partida que considerava corretas decisões tomadas contra sua equipe, mas entendia que o mesmo critério não havia sido aplicado em lances favoráveis ao Flamengo.
Uma rodada depois, o debate se inverteu.
Agora é o adversário do Flamengo que afirma ter sido prejudicado por uma decisão importante.
É justamente aqui que está o ponto mais delicado.
Não existe elemento suficiente para afirmar que houve uma “compensação” ao Flamengo pelo que aconteceu contra o Santos. Para sustentar uma acusação desse tamanho seria necessário demonstrar intenção dos árbitros, algo que os episódios isoladamente não comprovam.
Mas a sequência de controvérsias levanta uma discussão legítima sobre outro problema: a falta de uniformidade na aplicação dos critérios.
O futebol aceita que árbitros interpretem determinados lances de maneiras diferentes. O problema começa quando jogadores, treinadores e torcedores deixam de compreender qual é o parâmetro utilizado.
Uma entrada com intensidade semelhante será amarelo ou vermelho? Quando o VAR deve intervir? Qual é o limite para considerar uma decisão de campo claramente equivocada?
Quando essas respostas mudam de uma partida para outra, nasce a sensação de favorecimento.
E essa percepção se torna ainda mais perigosa quando envolve equipes que disputam diretamente o título.
A declaração de Samuel Xavier sobre um possível favorecimento sistemático a Flamengo e Palmeiras representa a opinião do jogador e não comprova que exista orientação da arbitragem para beneficiar os dois clubes.
Mas também não deveria simplesmente ser descartada como reclamação de quem perdeu.
O episódio reforça a necessidade de a arbitragem brasileira explicar melhor seus critérios e, principalmente, aplicá-los com maior uniformidade.
O campeonato entrou em sua reta decisiva. Flamengo lidera com 64 pontos, apenas um à frente do Palmeiras. O Fluminense permaneceu em terceiro, com 51.
Neste momento da competição, uma expulsão, um pênalti ou uma intervenção do VAR podem influenciar diretamente a disputa pelo título.
Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se o Flamengo foi prejudicado contra o Santos e beneficiado contra o Fluminense.
A pergunta é outra:
qual é, afinal, o critério da arbitragem brasileira?