
A goiana Helen Jaine Gomes Borgens fez história ao se tornar a primeira pessoa quilombola do Brasil aprovada no Concurso de Admissão à Carreira Diplomática (CACD). A conquista ocorreu em 12 de maio de 2026 e representa um marco na inclusão de comunidades quilombolas na diplomacia brasileira.
Nascida em Goiânia e criada na comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no Nordeste de Goiás, Helen concluiu o curso de Relações Internacionais na Universidade Federal de Goiás (UFG) em 2025. Sua trajetória, marcada pela dedicação aos estudos e pelas dificuldades de acesso à educação especializada, foi apresentada em reportagem publicada pelo Jornal UFG.
A aprovação também ocorreu em um momento histórico para o concurso. Pela primeira vez, a seleção reservou vagas específicas para candidatos indígenas e quilombolas. Das 60 oportunidades oferecidas em 2026, duas foram destinadas a indígenas e uma a quilombolas, ocupada por Helen.
A medida foi estabelecida pela legislação federal de cotas em concursos públicos, sancionada em 2025.

Filha de Nailza Gomes de Oliveira Borgens e Joel Ferreira Borgens, Helen cresceu em Simolândia, onde estudou no Colégio Estadual Elvira Leão Barreto.
Sua família pertence à comunidade do Retiro, integrante da Associação de Comunidades Quilombolas Castelo, Retiro e Três Rios.
Em entrevista ao Jornal UFG, ela relembrou a infância próxima à natureza e aos familiares que vivem na região.
“Foi uma infância muito boa, de bastante conexão com aquela terra, com a natureza e com tudo ao redor, com minha família, que mora toda ali junto”, contou.
Uma das maiores referências de Helen é sua avó, Brasilina Duques Borges, conhecida como Miúda, que sempre incentivou a educação dos filhos.
“Ela é minha maior inspiração porque tenho certeza de que, se tivesse tido a oportunidade, teria sido uma estudiosa incrível, capaz de colher muitos frutos com sua inteligência. Eu estudo por ela também”, afirmou.
Segundo Helen, os sete filhos de sua avó conseguiram concluir o ensino superior, uma realidade ainda distante para grande parte da população quilombola.
Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), divulgado em 2025, apontou que apenas 2,3% dos quilombolas brasileiros possuem ensino superior completo.
O interesse pela diplomacia começou em 2017, quando um professor de História de um cursinho preparatório para o Enem apresentou a carreira a Helen.
Na época, porém, ela considerava o sonho distante de sua realidade.
Mesmo depois de ingressar em Relações Internacionais na UFG, chegou a pensar em abandonar o curso. Foi após um incentivo da mãe para continuar por mais um semestre que encontrou uma disciplina decisiva para sua trajetória: Política Externa Brasileira.
O contato com o conteúdo reacendeu o interesse pela área e pela possibilidade de representar o Brasil no exterior.
Depois de concluir a graduação, em 2025, Helen voltou para Simolândia e iniciou a preparação para o concurso do Instituto Rio Branco.
A rotina exigiu dedicação e estudo independente, especialmente pela dificuldade de encontrar cursos e professores especializados no interior de Goiás.
“Aqui é interior do interior. Inglês, por exemplo, tive que estudar sozinha, porque não havia escola nem professor de inglês realmente preparado para ensinar”, relatou ao Jornal UFG.
A preparação também foi marcada por momentos de ansiedade e dificuldades para manter os estudos, mas Helen persistiu até conquistar a aprovação.
Ao Jornal UFG, o coordenador do curso de Relações Internacionais da universidade, Diego Magalhães, destacou o desempenho de Helen durante a graduação.
Segundo ele, a ex-aluna demonstrava iniciativa para aprofundar os conhecimentos, procurava orientação dos professores e se destacava pelas notas.
“Era um exemplo para outros colegas. O sucesso que ela teve no concurso inspira muita gente a se dedicar tanto quanto ela”, afirmou.
O professor também ressaltou a importância de ampliar a diversidade entre os profissionais que representam o país no exterior.
Para ele, a presença de pessoas de diferentes origens sociais e culturais na diplomacia contribui para aproximar a carreira da realidade da população brasileira.

O Concurso de Admissão à Carreira Diplomática é organizado pelo Instituto Rio Branco, vinculado ao Ministério das Relações Exteriores.
A seleção é considerada uma das mais exigentes do serviço público federal e envolve provas de conhecimentos em áreas como Língua Portuguesa, História do Brasil, História Mundial, Geografia, Inglês, Política Internacional, Economia e Direito.
Também são cobradas provas discursivas e conhecimentos de Espanhol ou Francês.
Após a aprovação, os candidatos passam por um curso de formação no Instituto Rio Branco, com duração de três a quatro semestres, incluindo uma etapa prática no Itamaraty.
Concluída a formação, o profissional inicia a carreira no cargo de terceiro-secretário, primeiro nível da hierarquia diplomática.
A remuneração inicial supera R$ 20 mil.
Para Helen, a aprovação vai além de uma conquista individual. Ela representa a oportunidade de abrir caminhos para pessoas de comunidades que historicamente tiveram pouca presença na diplomacia.
“Para mim é uma honra, porque é uma categoria pouco representada, com pouca voz, que as pessoas não dão muito valor, não conhecem muito a história”, declarou ao Jornal UFG.
Prestes a iniciar sua formação, Helen afirma que deseja construir uma carreira sólida e representar diferentes realidades do país.
Entre seus sonhos está alcançar o posto de embaixadora, mas a prioridade, segundo ela, é exercer bem a profissão.
“Quero ser uma boa diplomata e quero representar esse Brasil que é pouco representado”, afirmou.
A conquista da goiana marca um avanço na representatividade quilombola no serviço diplomático brasileiro e evidencia a importância do acesso à educação pública na formação de profissionais de diferentes origens.