Política Política
Debate entre Lula e Flávio tem ataques familiares e poucas propostas
Primeiro confronto do segundo turno foi marcado por acusações envolvendo filhos, irmãos e o ex-presidente Jair Bolsonaro, enquanto propostas concretas para o país ficaram em segundo plano
19/10/2026 14h46
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

O primeiro debate presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado neste domingo (18), na Band, foi marcado por ataques pessoais, acusações sobre familiares e poucos esclarecimentos sobre propostas de governo. Em vez de aprofundar soluções para os problemas do país, os candidatos dedicaram parte significativa do confronto a questionar a conduta de parentes do adversário.

O embate envolveu o filho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, e o ex-presidente Jair Bolsonaro. As discussões passaram por investigações da Polícia Federal, suspeitas de corrupção e decisões judiciais.

Lulinha e Eduardo Bolsonaro viram alvos de acusações

Logo no primeiro bloco, Flávio Bolsonaro questionou a situação de Lulinha, que vive na Espanha desde 2025 e é alvo de investigações da Polícia Federal por suspeitas de corrupção e tráfico de influência.

"Quem é que está sustentando o seu filho?", perguntou o senador.

Flávio também questionou por que o filho do presidente permanece no exterior e cobrou explicações sobre a atuação da Polícia Federal.

Lula respondeu que Lulinha retornará ao Brasil quando for necessário prestar esclarecimentos às autoridades.

"Meu filho virá prestar depoimento e não irá se esconder", afirmou.

Na sequência, o presidente direcionou as críticas a Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025.

"O seu irmão está fugindo nos Estados Unidos, tramando contra o Brasil! Tramando contra o Brasil, pedindo intervenção do Trump no Brasil!", declarou Lula.

Eduardo foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal, em junho, a quatro anos e dois meses de prisão por coação no curso do processo. A decisão foi mantida em setembro, após a rejeição de um recurso da defesa.

O ex-deputado nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política.

Fraudes no INSS ampliam troca de acusações

As investigações sobre descontos irregulares em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS também foram utilizadas pelos candidatos para atingir familiares.

Flávio Bolsonaro questionou a relação de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger, citada nas investigações sobre possíveis movimentações financeiras ligadas ao esquema.

O senador também mencionou o Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos (Sindnapi), entidade investigada que tem Frei Chico, irmão de Lula, como vice-presidente.

Lula respondeu afirmando que as fraudes tiveram origem durante o governo de Jair Bolsonaro e defendeu a responsabilização dos envolvidos.

O presidente também destacou a devolução de valores descontados irregularmente de aposentados durante sua gestão.

As suspeitas citadas no debate não significam, por si só, que os familiares mencionados tenham cometido crimes.

Lula questiona Flávio sobre Banco Master

Outro momento de confronto envolveu o Banco Master e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Lula questionou Flávio sobre uma suposta solicitação de R$ 134 milhões relacionada ao projeto cinematográfico Dark Horse, sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.

O presidente insinuou que os recursos poderiam ter como finalidade ajudar Eduardo Bolsonaro a permanecer nos Estados Unidos.

"Você tem que explicar os R$ 134 milhões que você pediu para o Vorcaro. Foi para ajudar o seu irmãozinho?", questionou.

A declaração foi apresentada como acusação durante o debate. O material disponível não comprova que os valores tenham sido efetivamente transferidos ou destinados ao ex-deputado.

Jair Bolsonaro também entra na discussão

O ex-presidente Jair Bolsonaro foi mencionado em diferentes momentos do encontro.

Ao discutir saúde pública, Lula criticou a condução da pandemia de Covid-19 durante a gestão anterior.

Flávio Bolsonaro reconheceu dificuldades na área e fez uma autocrítica em nome do pai.

"De fato, a saúde não foi uma área que a gente teve o melhor resultado durante o governo do presidente Bolsonaro, faço aqui esse mea-culpa", declarou.

O senador justificou parte das dificuldades pelo caráter inesperado da pandemia.

Apesar da discussão sobre saúde, o confronto voltou a priorizar a avaliação do governo anterior e as críticas pessoais, sem aprofundar medidas específicas para o setor.

Propostas ficam em segundo plano

Ao longo do debate, Lula e Flávio abordaram temas como economia, segurança pública, saúde, corrupção e relações internacionais.

No entanto, as discussões foram frequentemente interrompidas por acusações e referências a investigações envolvendo familiares, reduzindo o espaço para a apresentação detalhada de projetos, metas e medidas que cada candidato pretende implementar.

Questões como a melhoria dos serviços públicos, o combate à criminalidade, a geração de empregos e o crescimento econômico apareceram no confronto, mas sem um debate aprofundado sobre como as propostas seriam executadas.

O encontro ocorreu a uma semana do segundo turno das eleições presidenciais, marcado para domingo, 25 de outubro.

Em um cenário de disputa acirrada, o primeiro debate direto entre os candidatos acabou sendo marcado mais pelo confronto pessoal do que pela comparação de planos de governo, deixando o eleitor com poucas respostas concretas sobre as prioridades da próxima gestão.