A Polícia Federal prendeu, nesta segunda-feira (19), Márcia Gama e Lucas Santos Nepomuceno, conhecidos por serem mãe e irmão do rapper Oruam, durante uma operação contra um esquema de exploração ilegal do serviço de internet em comunidades do Rio de Janeiro. A investigação aponta que integrantes do Comando Vermelho (CV) utilizavam ameaças e violência para controlar o fornecimento de internet e arrecadar dinheiro com o serviço.
Batizada de Operação Backbone, a ação resultou, até o momento informado, na prisão de 20 pessoas. Entre os investigados está Márcio dos Santos Nepomuceno, conhecido como Marcinho VP, pai do artista e apontado como uma das lideranças históricas da facção. Ele já está preso no Sistema Penitenciário Federal.
O vereador do Rio de Janeiro Fabio Silva também foi preso, em Londrina, no Paraná. A defesa do parlamentar nega as acusações e qualquer envolvimento com atividades criminosas.
Segundo a Polícia Federal, o grupo investigado impunha um monopólio do fornecimento de internet em comunidades dos complexos do Alemão, da Penha e do Chapadão.
O esquema funcionava por meio de ameaças a empresas concorrentes e aos moradores.
De acordo com os investigadores, integrantes armados da facção cortavam cabos, incendiavam equipamentos de distribuição e impediam o trabalho de manutenção das operadoras regulares.
Com a infraestrutura dos concorrentes danificada, moradores e comerciantes ficavam pressionados a contratar provedores autorizados pelo grupo criminoso.
Essas empresas, por sua vez, pagariam taxas mensais à facção para continuar operando nas áreas controladas.
Registros contábeis analisados pela PF indicam que, em determinado mês, a exploração do serviço de internet representou mais de 40% da arrecadação do grupo no Complexo da Penha.
A investigação também apura a suspeita de que Marcinho VP continuaria exercendo influência sobre atividades empresariais nos territórios dominados pela facção, mesmo estando preso há quase três décadas.
Segundo a Polícia Federal, o esquema envolveria familiares, operadores financeiros e outras lideranças criminosas.
Os investigadores suspeitam que parte dos recursos obtidos com a cobrança pelo serviço de internet fosse repassada por meio de empresas e contas bancárias utilizadas para dificultar a identificação da origem do dinheiro.
Entre os mecanismos investigados estão produtoras de eventos, empresas de publicidade, imóveis de alto padrão adquiridos com dinheiro em espécie e operações com criptomoedas.
A prisão dos investigados não representa condenação. A participação individual de cada pessoa e as suspeitas de lavagem de dinheiro ainda dependem da apuração e da análise judicial.
A Operação Backbone foi autorizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e prevê o cumprimento de 23 mandados de prisão preventiva e 24 de busca e apreensão.
As diligências ocorrem no Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, São João de Meriti, Teresópolis, Maricá e Magé, além de medidas em unidades prisionais.
A Justiça também determinou o bloqueio de bens e valores de até R$ 558 milhões, envolvendo 40 pessoas e 42 empresas.
Entre os negócios investigados estão provedores de internet, produtoras de eventos, empresas de contabilidade e companhias suspeitas de serem utilizadas para movimentar recursos de origem criminosa.
A decisão judicial também prevê a suspensão das atividades econômicas de empresas envolvidas no esquema.
A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) será comunicada sobre as empresas investigadas para a adoção das medidas cabíveis, incluindo a possível cassação de autorizações e a interrupção das atividades irregulares.
Segundo a Polícia Federal, as providências deverão considerar a continuidade do acesso à internet para os moradores das comunidades atingidas.
A investigação busca identificar os responsáveis pelo esquema, interromper o financiamento da facção e impedir que o controle de serviços essenciais seja utilizado como fonte de arrecadação criminosa.