Reeleito presidente da República após derrotar Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições de 2026, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá o desafio de cumprir uma série de compromissos apresentados durante a campanha. Entre as principais propostas estão a gratuidade do transporte público aos fins de semana, a criação de benefícios para estudantes universitários, a ampliação dos serviços de saúde e o combate ao desmatamento. O petista iniciará seu quarto mandato em 5 de janeiro de 2027.
O plano de governo para os próximos quatro anos reúne propostas nas áreas de economia, educação, segurança pública, infraestrutura, meio ambiente e políticas sociais. Lula também defendeu a continuidade dos investimentos públicos e dos programas de transferência de renda, com o compromisso de manter o controle das contas do governo federal.
Parte das medidas anunciadas depende de aprovação no Congresso Nacional, enquanto outras exigem novos investimentos, regulamentações ou ampliação de programas já existentes. Confira os principais compromissos assumidos pelo presidente reeleito.
Uma das propostas apresentadas durante a campanha é garantir transporte coletivo gratuito aos sábados, domingos e feriados em todo o país.
A medida prevê o uso de recursos provenientes de emendas parlamentares obrigatórias para financiar a gratuidade. Para isso, o governo encaminhou ao Congresso uma proposta de emenda à Constituição (PEC), que ainda precisa ser aprovada pelos deputados e senadores.
A iniciativa não prevê transporte gratuito durante todos os dias da semana. A implementação também dependerá de acordos com estados e municípios, responsáveis pela organização de grande parte dos sistemas de transporte coletivo.
Na educação, Lula pretende ampliar o alcance do programa Pé-de-Meia, atualmente destinado a incentivar a permanência de estudantes no ensino médio.
Uma das principais novidades é a criação de uma modalidade para universitários de baixa renda. A proposta anunciada prevê pagamentos de R$ 700 mensais, durante dez meses por ano, além de depósitos anuais de R$ 2,5 mil em uma poupança que poderá ser retirada após a conclusão da graduação.
O governo também quer ampliar o programa no ensino médio, expandir as vagas em creches e pré-escolas e aumentar a oferta de educação em tempo integral.
Outros compromissos incluem a criação de 111 novos institutos federais, o fortalecimento do ensino técnico e a meta de alfabetizar 80% das crianças na idade adequada.
Para os professores, o programa prevê a continuidade da valorização do piso nacional do magistério e iniciativas de incentivo à formação profissional, como o Pé-de-Meia Licenciatura e o Bolsa Mais Professores.
Na saúde, o presidente reeleito promete ampliar o atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS), principalmente em consultas especializadas, exames e cirurgias.
A proposta prevê a continuidade do programa Agora Tem Especialistas, que busca reduzir o tempo de espera dos pacientes por atendimento especializado, inclusive por meio de parcerias com hospitais privados.
Outra meta anunciada é garantir o diagnóstico e o início do tratamento de câncer em até 30 dias pelo SUS.
Lula também pretende ampliar o Mais Médicos, fortalecer a atenção básica e investir em tecnologias para melhorar o atendimento nas unidades de saúde.
Entre as iniciativas estão a implementação de prontuários digitais integrados, o uso de inteligência artificial para auxiliar na triagem de pacientes e a expansão de serviços de telemedicina.
A campanha também apresentou propostas para ampliar a vacinação, os serviços de saúde mental e o atendimento especializado a idosos.
Na área econômica, o programa de Lula prevê a manutenção do atual arcabouço fiscal, conjunto de regras que estabelece limites para o crescimento das despesas públicas.
O objetivo declarado é controlar a inflação e o endividamento do governo sem reduzir os investimentos considerados essenciais em políticas sociais.
O presidente também promete ampliar o acesso ao crédito, com medidas voltadas à renegociação de dívidas de famílias e empresas.
Para os microempreendedores individuais (MEIs), o governo sancionou um pacote que eleva o limite anual de faturamento de R$ 81 mil para R$ 110 mil em 2027, além de prever o perdão de dívidas tributárias. Nesse caso, trata-se de uma medida já aprovada, cuja implementação integra a agenda econômica do próximo mandato.
Outra prioridade será a regulamentação da reforma tributária sobre o consumo, incluindo a isenção de impostos sobre produtos da cesta básica e a cobrança diferenciada de tributos sobre itens prejudiciais à saúde.
Na segurança, Lula pretende fortalecer a atuação do governo federal no enfrentamento ao crime organizado.
Entre as medidas estão a execução do programa Brasil Contra o Crime Organizado e a ampliação das Forças Integradas de Combate ao Crime Organizado (Ficcos), que reúnem instituições de segurança em operações conjuntas.
O plano também prevê a criação de um Ministério da Segurança Pública, com a finalidade de ampliar a coordenação das ações federais, estaduais e municipais.
Outras propostas incluem o reforço da fiscalização nas fronteiras, o rastreamento de armas e munições e o compartilhamento de informações de inteligência entre órgãos de segurança.
Durante a campanha, Lula também declarou ser favorável à redução da maioridade penal em casos de crimes hediondos, embora a implementação de uma mudança dessa natureza dependa de alteração constitucional.
Na política ambiental, o presidente reafirmou a meta de eliminar o desmatamento até 2030, além de ampliar os investimentos em preservação e desenvolvimento sustentável.
O programa prevê a atração de recursos nacionais e internacionais para projetos de economia verde, proteção ambiental e transição energética.
Lula também pretende incentivar o uso de energias renováveis, biocombustíveis e tecnologias de baixa emissão de carbono.
Ao mesmo tempo, o governo defende a ampliação da exploração de petróleo e gás, com exigências socioambientais. A combinação dessas duas estratégias deverá ser um dos desafios da política energética no próximo mandato.
O presidente pretende lançar mais uma edição do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), com investimentos públicos e privados em infraestrutura.
O objetivo é ampliar obras de transporte, energia, saneamento e logística, além de dar continuidade a projetos em andamento.
O plano também prevê investimentos em rodovias, ferrovias e serviços públicos, com a participação de empresas privadas em concessões e parcerias.
A proposta busca estimular a geração de empregos, aumentar a capacidade produtiva do país e melhorar a infraestrutura de diferentes regiões.
No enfrentamento à violência contra as mulheres, o governo promete ampliar a rede de atendimento às vítimas, concluir 30 Casas da Mulher Brasileira e 15 centros de referência, além de distribuir equipamentos para monitoramento de agressores.
Outra proposta é expandir as Salas Lilás, espaços de acolhimento especializado a mulheres em situação de violência.
Para o Judiciário, o plano de governo defende medidas para ampliar a transparência, reduzir a demora dos processos e combater os chamados supersalários.
Também estão previstas discussões sobre mandatos para integrantes das cortes superiores, regras de quarentena e mecanismos de responsabilização de magistrados.
Nas relações internacionais, Lula pretende fortalecer os vínculos do Brasil com o Mercosul, os Brics e os países do Sul Global.
O programa prevê maior cooperação econômica com a China e outros parceiros comerciais, além de negociações com os Estados Unidos para ampliar acordos e enfrentar barreiras comerciais.
Na cultura, o governo quer fortalecer as leis de incentivo, como a Rouanet e a Aldir Blanc, ampliar investimentos em projetos culturais e desenvolver políticas para o audiovisual.
A regulamentação das plataformas de streaming e do uso de inteligência artificial também aparece entre os compromissos apresentados.
Embora tenha conquistado a reeleição, Lula enfrentará obstáculos para colocar parte das propostas em prática.
O novo mandato começará com uma oposição expressiva no Congresso Nacional, o que poderá dificultar a aprovação de mudanças que dependem de leis ou alterações na Constituição.
Outro desafio será o financiamento das medidas. A ampliação de programas sociais, a criação de novos benefícios e os investimentos em infraestrutura exigirão recursos em um cenário de restrições orçamentárias.
O cumprimento das promessas dependerá da capacidade do governo de negociar com o Congresso, definir prioridades e conciliar os investimentos públicos com o equilíbrio das contas federais.