O mercado financeiro brasileiro iniciou a semana em forte turbulência após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nesta segunda-feira (26), o Ibovespa chegou a cair mais de 17%, levando a Bolsa de Valores brasileira (B3) a interromper temporariamente as negociações. O dólar também disparou, atingindo R$ 5,60 na máxima do dia, em meio à reação dos investidores ao resultado do segundo turno das eleições presidenciais.
A queda da Bolsa começou logo na abertura do pregão, quando o principal índice do mercado brasileiro recuou mais de 10% e acionou o mecanismo de segurança conhecido como circuit breaker. As operações ficaram suspensas por 30 minutos e, após a retomada, o Ibovespa chegou a registrar perdas de 17,34%.
Por volta das 14h30, o índice operava em queda de 14,10%, aos 176.173 pontos. No mesmo horário, o dólar subia 8,82%, cotado a R$ 5,4336, depois de alcançar R$ 5,6048 ao longo do dia.
O movimento representa uma mudança brusca em relação à sexta-feira (23), quando a moeda americana havia encerrado o pregão a R$ 4,9930, enquanto o Ibovespa fechou em alta de 0,47%, aos 205.083 pontos.
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro (PL), confirmada no domingo (25), contrariou as expectativas de parte dos investidores, que trabalhavam com a possibilidade de vitória do candidato do PL.
Com o resultado, o mercado passou a reavaliar as perspectivas para os próximos quatro anos, principalmente em relação ao controle dos gastos públicos, à trajetória da dívida federal e à política econômica do novo mandato.
Uma das principais preocupações é a capacidade do governo de equilibrar as contas públicas enquanto mantém ou amplia programas sociais e investimentos anunciados durante a campanha.
A reação também atingiu os juros futuros, que registraram forte alta. Esses contratos refletem as expectativas do mercado para as taxas de juros nos próximos anos e influenciam os custos de financiamento da economia.
O circuit breaker é um mecanismo de segurança da B3 utilizado em momentos de quedas muito intensas no mercado de ações.
Quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento anterior, as negociações são interrompidas por 30 minutos. O objetivo é permitir que os investidores reavaliem suas operações e reduzir a possibilidade de decisões precipitadas durante movimentos de pânico.
Pelas regras gerais da Bolsa, uma nova queda até 15% pode provocar outra paralisação, desta vez por uma hora. Entretanto, diante da volatilidade desta segunda-feira, a B3 anunciou uma alteração excepcional, elevando para 20% o limite para uma segunda interrupção.
O mecanismo foi acionado pela primeira vez desde março de 2020, quando os mercados financeiros enfrentaram fortes quedas durante o início da pandemia de Covid-19.
Além da queda das ações, a valorização do dólar foi outro destaque do dia.
A moeda americana chegou a subir mais de 12% na máxima da sessão, superando temporariamente R$ 5,60, antes de reduzir parte dos ganhos.
O movimento indica maior procura por proteção em moeda estrangeira diante das incertezas econômicas e políticas.
Os juros futuros também avançaram. Por volta das 10h, a taxa prevista para janeiro de 2027 subia de 13,475% para 13,898% ao ano. Para janeiro de 2029, o avanço foi de 12,595% para 15,03%, enquanto o contrato para 2035 chegou a 15,375%.
A alta dessas taxas não representa uma mudança imediata da Selic, definida pelo Banco Central. No entanto, caso o movimento persista, poderá encarecer empréstimos, financiamentos e o custo de captação de recursos por empresas.
Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional realizou uma operação de recompra de títulos públicos prefixados, que movimentou aproximadamente R$ 7,1 bilhões.
Ao todo, foram recomprados 8,4 milhões de títulos, conhecidos como NTN-Fs, em uma tentativa de reduzir as oscilações e melhorar as condições de negociação no mercado de dívida pública.
A recompra ocorre quando o governo adquire títulos que estavam nas mãos dos investidores, ajudando a sustentar seus preços e diminuir a pressão de alta sobre as taxas de rendimento.
O movimento também foi acompanhado por fortes perdas em ações brasileiras negociadas no exterior e pela desvalorização de ativos de países vizinhos, como a Argentina.
A reação do mercado financeiro dependerá dos sinais apresentados pelo governo sobre a condução da política econômica no quarto mandato de Lula.
Investidores devem acompanhar possíveis anúncios de medidas fiscais, mudanças nas expectativas para a dívida pública e definições sobre a composição da equipe econômica.
No cenário internacional, os preços do petróleo, próximos de US$ 117 por barril, e as decisões sobre juros nos Estados Unidos também podem influenciar o comportamento do dólar e da Bolsa brasileira.
A forte queda desta segunda-feira mostra a reação inicial dos investidores ao resultado eleitoral, mas não determina, por si só, o comportamento da economia nos próximos quatro anos. A evolução dos mercados dependerá das políticas efetivamente adotadas e das condições econômicas nacionais e internacionais.