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Conselho de Psicologia vai apurar caso de seleção contra petistas
CRP-09 repudia discriminação política em contratações e anuncia providências após psicóloga goiana Mara Suassuna relatar pedidos de empresários para excluir apoiadores do PT de vagas de emprego
27/10/2026 12h03
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

O Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região (CRP-09) anunciou, nesta terça-feira (27), que adotará providências para apurar a conduta da psicóloga goiana Mara Suassuna, após ela afirmar que empresários solicitaram a exclusão de candidatos petistas em processos seletivos. Em nota pública, o órgão repudiou a utilização de critérios político-partidários na contratação de funcionários e destacou que a prática pode configurar discriminação.

A manifestação ocorre após a repercussão de um vídeo divulgado por Mara na segunda-feira (26), um dia depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na gravação, a profissional afirma ter recebido telefonemas e mensagens de clientes interessados em contratar trabalhadores de direita, com a condição de que os selecionados não fossem petistas.

Segundo o CRP-09, a escolha de profissionais deve considerar competências, qualificações e requisitos necessários para o exercício da função, sem utilizar preferências políticas ou ideológicas como critérios de exclusão.

Conselho anuncia apuração da conduta

Na nota, o Conselho de Psicologia afirma que o exercício profissional deve respeitar a dignidade humana e contribuir para combater práticas discriminatórias.

O órgão destacou que o conhecimento da Psicologia não pode ser utilizado para justificar a exclusão de pessoas do mercado de trabalho por suas convicções políticas.

Diante da repercussão, o CRP-09 informou que encaminhará o caso para apuração conforme as normas do Código de Processamento Disciplinar da categoria.

O conselho esclareceu que esses procedimentos tramitam sob sigilo, conforme a Resolução nº 11/2019 do Conselho Federal de Psicologia (CFP).

Por esse motivo, não serão divulgados detalhes sobre as etapas da apuração. O órgão também ressaltou que a profissional terá direito ao contraditório e à ampla defesa.

Até o momento, não existe conclusão sobre eventual infração ética cometida pela psicóloga.

Entenda as declarações de Mara Suassuna

A polêmica começou depois que Mara publicou um vídeo relatando ter sido procurada por empresários que pretendiam contratar funcionários com posicionamentos políticos alinhados à direita.

Segundo ela, os pedidos surgiram após o resultado das eleições presidenciais de domingo (25).

“Hoje eu recebi vários telefonemas, várias mensagens de clientes meus, de empresários que têm nas suas empresas, inclusive pedindo para selecionar novos colaboradores, cujo critério passa por não ser petista”, afirmou.

Durante a gravação, a psicóloga argumentou que o processo de contratação não estaria relacionado apenas à orientação partidária, mas à compatibilidade entre os valores dos trabalhadores e os das empresas.

Mara citou a Teoria dos Valores Humanos Básicos, do psicólogo Shalom Schwartz, para defender a importância do alinhamento de princípios no ambiente profissional.

Ao final, afirmou que poderia atender aos pedidos dos empresários e utilizou a expressão “laranjas podres” ao se referir a pessoas que considera incompatíveis com os valores das organizações.

Psicóloga nega que alinhamento de valores signifique posição política

Após a repercussão, Mara Suassuna divulgou uma nota na qual afirmou que compartilhar valores organizacionais não significa ter a mesma preferência partidária.

Segundo a profissional, a seleção de funcionários deve considerar princípios como ética, responsabilidade, respeito, integridade e compromisso com os objetivos da empresa.

Ela também defendeu que a diversidade de pensamento fortalece as organizações.

Apesar da explicação, as declarações iniciais passaram a ser questionadas porque mencionavam expressamente a exclusão de petistas e a preferência por trabalhadores de direita.

Não há, nas informações divulgadas até o momento, comprovação de que candidatos tenham sido efetivamente eliminados de processos seletivos por suas posições políticas. Os pedidos dos empresários foram relatados pela própria psicóloga.

O que diz a legislação sobre discriminação no trabalho?

A legislação brasileira estabelece proteção contra práticas discriminatórias no acesso ao emprego e na manutenção das relações de trabalho.

A Lei nº 9.029/1995 proíbe a adoção de medidas discriminatórias que restrinjam oportunidades profissionais. O CRP-09 também citou a Constituição Federal e a Convenção nº 111 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata da discriminação em matéria de emprego e profissão.

No caso dos psicólogos, o Código de Ética Profissional estabelece que a atuação deve contribuir para eliminar formas de discriminação, exploração e violência.

O documento também proíbe que profissionais induzam convicções políticas, filosóficas, morais ou ideológicas durante o exercício de suas funções.

Empresas podem estabelecer critérios relacionados às competências e às exigências de cada cargo, mas a exclusão de candidatos exclusivamente por suas opiniões políticas pode caracterizar discriminação.

Dependendo das circunstâncias, práticas desse tipo podem resultar em consequências trabalhistas e administrativas.

Caso ainda será analisado pelo conselho

Com o anúncio do CRP-09, a repercussão das declarações de Mara Suassuna passa a ser acompanhada também pelo órgão responsável pela fiscalização da profissão em Goiás.

A apuração deverá avaliar a conduta da psicóloga à luz das normas éticas da categoria, sem antecipar uma conclusão sobre eventual irregularidade.

O conselho não informou prazo para o encerramento do procedimento nem anunciou qualquer punição à profissional.

A manifestação reforça que diferenças partidárias não devem ser utilizadas como justificativa para restringir oportunidades de trabalho, especialmente em processos seletivos conduzidos por profissionais sujeitos a regras específicas de ética e responsabilidade.