O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, criticou nesta quinta-feira (29) a carta divulgada por Flávio Bolsonaro (PL-RJ), na qual o senador contesta o resultado das eleições presidenciais e se apresenta como “líder do Brasil”. A declaração foi feita antes de uma visita ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre prisão domiciliar em Brasília.
Questionado por jornalistas sobre o documento, Valdemar respondeu de forma direta: “Não gostei. Não gostei.” O dirigente não detalhou os motivos da insatisfação, mas afirmou que pretendia conversar com Jair Bolsonaro sobre a situação política do partido.
“Tenho muitas novidades para contar para ele, como é que está toda a situação, e vai dar tudo certo”, declarou.
A manifestação ocorre um dia depois de Flávio divulgar a carta, já nos Estados Unidos, para onde viajou acompanhado da família após descumprir uma determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) que o proibia de deixar o Brasil.
O documento foi publicado na quarta-feira (28), poucas horas depois de Flávio desembarcar em Miami.
Na primeira versão, compartilhada pelo influenciador Paulo Figueiredo, aliado da família Bolsonaro, o senador se apresentava como o “verdadeiro presidente eleito do Brasil”, apesar de ter sido derrotado por Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no segundo turno.
O arquivo também utilizava um brasão nacional antigo, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, símbolo adotado após a Proclamação da República e substituído em 1968.
O documento foi corrigido para incluir o brasão atual da República Federativa do Brasil. Posteriormente, Flávio alterou novamente o texto e substituiu as referências a si mesmo como presidente por “líder do Brasil”.
Apesar das mudanças, o senador manteve as acusações de fraude eleitoral, sem apresentar provas, e anunciou que pretende comandar a oposição ao governo Lula a partir dos Estados Unidos.
A posição de Flávio contrasta com a adotada oficialmente pelo próprio PL, que reconheceu o resultado das eleições, embora tenha solicitado esclarecimentos à Justiça Eleitoral.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Lula no segundo turno, realizado no domingo (25). O presidente foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro, uma diferença de aproximadamente 4,4 milhões de votos.
Na carta, Flávio questionou principalmente a prorrogação do horário de votação até as 19h, determinada pelo ministro Cristiano Zanin, do STF.
Entretanto, segundo dados divulgados pelo TSE, cerca de 34 mil votos foram registrados durante o período adicional, quantidade insuficiente para modificar o resultado da eleição.
O presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, reconheceu a vitória de Lula e afirmou que a extensão do horário não comprometeu a integridade da votação.
A carta também provocou reações de outras lideranças políticas.
O governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou na quarta-feira (28) que compreende a indignação de Flávio com a derrota, mas defendeu o respeito ao resultado eleitoral.
“A eleição acabou e agora é preciso olhar para a frente. Entendo o sentimento de Flávio, entendo sua indignação e sua revolta, e esse sentimento é o de muitos brasileiros também. Mas o caminho é respeitar o resultado das urnas e seguir em frente”, declarou Tarcísio.
O governador também defendeu que a oposição ao governo Lula seja exercida dentro das instituições democráticas.
Partidos como União Brasil, PSD, PSDB e MDB também se manifestaram contra o conteúdo da carta e defenderam o reconhecimento do resultado das urnas.
A visita de Valdemar ao ex-presidente Jair Bolsonaro foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF.
O encontro ocorre em meio às discussões sobre a reorganização do PL após a derrota presidencial e a saída de Flávio Bolsonaro do país.
Segundo o blog do jornalista Valdo Cruz, no g1, Valdemar teme que a repercussão da viagem e da carta enfraqueça politicamente o partido, justamente após a legenda ampliar sua representação no Congresso Nacional nas eleições de 2026.
A avaliação entre dirigentes é de que o episódio pode dificultar a construção de alianças com outras forças políticas e a organização de uma oposição conjunta ao governo Lula.
Nesse cenário, a senadora eleita Michelle Bolsonaro é apontada como uma possível liderança para ocupar maior espaço no partido e no movimento bolsonarista. Entretanto, há divergências entre integrantes da família sobre o papel que ela poderá desempenhar.
Até o momento, o PL não anunciou mudanças em sua estrutura de comando nem uma decisão oficial sobre quem deverá liderar a oposição ao próximo governo.
Flávio Bolsonaro chegou aos Estados Unidos na quarta-feira (28), após atravessar a fronteira entre o Brasil e a Argentina e embarcar em um avião particular com destino a Miami, com escala no Equador.
A viagem ocorreu depois que Alexandre de Moraes determinou a entrega dos passaportes do senador à Polícia Federal e o proibiu de deixar o território brasileiro.
Flávio não entregou os documentos dentro do prazo estabelecido, e seus passaportes brasileiros foram cancelados.
A determinação foi adotada no âmbito de uma investigação sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e outras irregularidades envolvendo o parlamentar e o advogado Willer Tomaz.
Na carta divulgada após a chegada aos Estados Unidos, o senador afirmou que pretende manter contato frequente com seus apoiadores e apresentar uma estratégia de mobilização política.
A crítica pública de Valdemar evidencia divergências dentro do próprio PL sobre a postura de Flávio após a derrota eleitoral. O encontro com Jair Bolsonaro deverá tratar dos próximos passos da legenda e de sua atuação na oposição ao quarto mandato de Lula.
-Por: Lucas Leonardo, estudante de Jornalista. Goiânia - GO