A Polícia Federal (PF) realizou buscas em endereços ligados ao pastor e empresário Márcio Poncio, na manhã desta quinta-feira (29), durante a nona fase da Operação Unha e Carne, no Rio de Janeiro. A investigação apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de lavagem de dinheiro, ocultação de patrimônio e utilização de empresas e terceiros para esconder a verdadeira propriedade de bens e recursos financeiros.
Ao todo, foram cumpridos quatro mandados de busca e apreensão na Barra da Tijuca, na Zona Sudoeste do Rio. As ordens foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
Três dos endereços são salas comerciais ligadas ao pastor, apontadas como possíveis estruturas administrativas e operacionais do grupo investigado. O quarto é um imóvel residencial vinculado a Bernardo Coutinho Loyola, sobrinho do bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, conhecido como Adilsinho.
Márcio Poncio já havia sido preso na quinta fase da operação, realizada em julho. Posteriormente, a prisão preventiva foi substituída por prisão domiciliar, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, do STF.
Segundo a Polícia Federal, a nova etapa da operação foi desencadeada após a análise de informações extraídas do celular apreendido com um dos investigados durante a quinta fase.
Os dados revelaram novos endereços, empresas e bens que podem ter sido utilizados para administrar e movimentar recursos de origem ilícita.
As investigações identificaram indícios de uma rede patrimonial formada por imóveis de alto padrão, veículos de luxo, aeronaves executivas e empresas registradas em nome de familiares, colaboradores e terceiros.
Apesar de aparecerem formalmente em nome de outras pessoas, esses bens permaneceriam sob o controle de integrantes da organização investigada.
A PF também apura movimentações frequentes de dinheiro em espécie, transações financeiras de difícil rastreamento e o uso de empresas brasileiras e estrangeiras, inclusive em países com tributação favorecida.
Outro ponto investigado é a possível utilização de entidades religiosas e holdings patrimoniais para ocultar a titularidade de bens de elevado valor.
Os agentes buscam documentos, aparelhos eletrônicos, registros contábeis e outros materiais que possam esclarecer o funcionamento do suposto esquema.
Márcio Poncio foi preso em 2 de julho, durante a quinta fase da Operação Unha e Carne, que investigou suspeitas de lavagem de dinheiro relacionadas a integrantes do jogo do bicho e possíveis conexões com agentes públicos do Rio de Janeiro.
Na mesma etapa, a Polícia Federal realizou buscas envolvendo o ex-deputado federal Marco Antônio Cabral (Solidariedade), filho do ex-governador Sérgio Cabral.
O bicheiro Adilsinho, apontado como uma das principais lideranças do grupo investigado, também foi citado naquela fase. Ele já estava preso quando a operação foi realizada.
Em 12 de julho, o ministro Alexandre de Moraes autorizou que Márcio Poncio deixasse o regime de prisão preventiva e passasse a cumprir prisão domiciliar.
A operação desta quinta-feira representa um novo desdobramento das investigações iniciadas anteriormente, com foco na identificação e no rastreamento de bens e recursos financeiros.
Em nota divulgada à imprensa, a defesa de Márcio Poncio informou que ainda não teve acesso à decisão judicial que autorizou as buscas.
Segundo os advogados, por esse motivo, não é possível conhecer os fundamentos utilizados para determinar a medida.
A defesa também ressaltou que o pastor não teria sido atingido diretamente pela ordem judicial, embora os mandados tenham sido cumpridos em imóveis comerciais ligados a ele.
O posicionamento foi apresentado após a divulgação da nova fase da operação.
Márcio Poncio é pastor da Igreja da Nuvem, empresário do setor de tabaco e suplente de deputado federal pelo Rio de Janeiro.
Ele ganhou notoriedade nacional principalmente pela exposição da família nas redes sociais.
É pai da deputada estadual Sarah Poncio (Solidariedade-RJ) e do cantor Saulo Poncio, ex-integrante da dupla musical UM44K.
Nos últimos anos, a família Poncio esteve envolvida em episódios de grande repercussão na imprensa e nas redes sociais.
A investigação da Polícia Federal, entretanto, concentra-se nas suspeitas de participação em uma rede de movimentação financeira e ocultação de patrimônio.
A Operação Unha e Carne faz parte de investigações conduzidas pela Polícia Federal no Rio de Janeiro, no contexto das determinações do STF relacionadas à chamada ADPF das Favelas.
As primeiras fases da operação investigaram suspeitas de vazamento de informações sigilosas de ações policiais para integrantes da facção Comando Vermelho.
Entre os investigados em etapas anteriores estão políticos e agentes de segurança pública suspeitos de facilitar a atuação de organizações criminosas.
A quinta fase ampliou o foco das apurações para possíveis esquemas de lavagem de dinheiro ligados à exploração ilegal do jogo do bicho e às relações com integrantes dos poderes Executivo e Legislativo fluminense.
Já a nona fase busca aprofundar o rastreamento dos recursos e identificar quem controla os bens associados ao grupo investigado.
Até o momento, a Polícia Federal não divulgou o resultado da análise dos materiais recolhidos nesta quinta-feira. As investigações continuam para esclarecer a origem e a movimentação dos recursos, além da eventual participação de cada investigado no suposto esquema.