O empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, negou ter cometido fraudes nas operações de venda de carteiras de crédito ao Banco de Brasília (BRB) e afirmou que a crise financeira enfrentada pela instituição pública foi provocada pelas investigações e pela liquidação do Master. Em depoimento à Polícia Federal (PF), realizado em 15 de setembro, o banqueiro declarou ser vítima de perseguição e contestou as suspeitas de um esquema que teria movimentado bilhões de reais.
As declarações vieram à tona após a PF encaminhar ao Supremo Tribunal Federal (STF), na quarta-feira (28), um relatório parcial de mais de 700 páginas. O documento aponta suspeitas de irregularidades em operações financeiras realizadas entre os dois bancos e registra o indiciamento de Vorcaro, do ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa e de outras 13 pessoas.
Segundo a investigação, o BRB adquiriu aproximadamente R$ 17,5 bilhões em ativos e carteiras de crédito do Banco Master entre julho de 2024 e outubro de 2025. Desse total, pelo menos R$ 12,2 bilhões corresponderiam a créditos comercializados sem comprovação de existência, conforme a PF.
Vorcaro rejeita as acusações e sustenta que as operações não provocaram prejuízo ao banco público.
Durante o depoimento, o empresário afirmou que o BRB sofreu uma crise de confiança após a liquidação do Banco Master e sua prisão.
Segundo ele, a repercussão das investigações teria provocado a retirada de bilhões de reais da instituição.
“O banco vive de credibilidade. Depois da liquidação e da minha prisão, foi sacado R$ 9 bilhões do BRB. A crise do BRB não foi causada por mim, não, foi causada pela situação que ocorreu, de liquidação do Master, que era parceiro”, declarou.
O banqueiro argumentou que o impacto sobre a imagem das instituições financeiras teria sido responsável pela instabilidade, e não as operações comerciais realizadas entre os bancos.
A afirmação contrasta com o entendimento da Polícia Federal, que investiga se o BRB adquiriu carteiras compostas por créditos sem comprovação de existência, em operações que teriam beneficiado financeiramente o Master.
Vorcaro reconheceu que houve problemas em carteiras de crédito relacionadas à empresa Tirreno, envolvida nas negociações com o BRB.
Segundo o empresário, porém, as operações teriam sido interrompidas em maio de 2025, e os problemas já estavam resolvidos antes da divulgação das investigações, em novembro daquele ano.
Ele afirmou que utilizou ativos do Banco Master e bens próprios para substituir os créditos questionados.
“Quando fiquei sabendo do problema com a carteira, eu peguei ativos do banco e ativos próprios meus e substituí, em boa-fé com o BRB. E hoje tem mais ativos lá do que ele pagou”, declarou.
Vorcaro também afirmou que os clientes das instituições não sofreram perdas e que o BRB recebeu ativos suficientes para compensar os valores envolvidos nas transações.
A Polícia Federal, entretanto, investiga não apenas a existência de eventuais prejuízos, mas também a regularidade das operações, a autenticidade dos créditos e a possível utilização de documentos ou informações falsas.
Em outro momento do depoimento, Vorcaro acusou integrantes da Polícia Federal de construir uma interpretação equivocada sobre as transações entre Master e BRB.
O empresário afirmou que as suspeitas surgiram a partir de informações do Banco Central que, segundo ele, teriam sido analisadas incorretamente.
“Um agente que me persegue há 6 anos cria uma fantasia de que eu criei uma fraude de R$ 12 bi pra me prender”, declarou.
Na sequência, voltou a negar as irregularidades.
“Fraude não teve. Não teve fraude. Não tem cliente que perdeu dinheiro, o BRB não perdeu dinheiro”, afirmou.
O banqueiro também contestou a condução das investigações e disse que o caso passou a sofrer pressão política e da opinião pública.
Segundo ele, essa repercussão estaria prejudicando uma análise imparcial das operações financeiras.
Durante a oitiva, o empresário afirmou estar preso injustamente e pediu que a investigação fosse arquivada por ausência de provas.
Ele também sugeriu a contratação de uma empresa estrangeira para realizar uma perícia independente sobre os ativos negociados com o BRB.
“Eu tô preso injustamente por conta disso. Eu não fiz fraude nenhuma com BRB, eu não lesei nada o BRB”, declarou.
Em seguida, pediu uma nova análise das transações.
“Arquive esse processo, porque não tem prova nenhuma. Não tem prejuízo. Faça uma perícia com uma empresa de fora, não brasileira”, afirmou.
Vorcaro defendeu que uma avaliação externa poderia confirmar sua versão de que os ativos vendidos eram legítimos e que as operações não provocaram perdas ao banco público.
O pedido representa uma manifestação do investigado e não altera, por si só, o andamento do inquérito.
O depoimento também abordou imóveis avaliados em aproximadamente R$ 146 milhões, que, segundo as investigações, poderiam ter sido utilizados como compensação em negociações envolvendo o ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa.
Vorcaro negou que os imóveis fossem destinados a Costa como presente ou vantagem indevida.
Segundo o empresário, caso a tentativa de união entre Banco Master e BRB fosse concretizada, Costa poderia assumir uma função de gestão na instituição resultante da operação.
Nesse cenário, o executivo precisaria se mudar com a família para São Paulo e teria imóveis disponibilizados como benefício relacionado ao cargo.
“Eu não prometi imóvel para ele. Prometi imóvel para ele morar, como parte do benefício de ser gestor do banco”, declarou.
De acordo com Vorcaro, os bens seriam cedidos em regime de comodato, sem transferência de propriedade. Ele também mencionou a possibilidade de compra futura dos imóveis por meio de um programa de bonificação.
Em seu próprio depoimento, Paulo Henrique Costa afirmou que o BRB desconhecia possíveis fraudes nas operações realizadas com o Banco Master.
As explicações dos dois investigados serão analisadas em conjunto com os documentos e demais elementos reunidos pela Polícia Federal.
No relatório encaminhado ao STF, a Polícia Federal descreve Daniel Vorcaro como o “principal centro de comando, coordenação e decisão” da estrutura investigada.
O empresário foi indiciado por suspeitas de gestão fraudulenta, indução a erro, falsidade em informações ou documentos, organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Já Paulo Henrique Costa foi indiciado por gestão fraudulenta e organização criminosa.
Segundo os investigadores, o ex-presidente do BRB teria utilizado as atribuições do cargo para viabilizar a continuidade das operações estruturadas pelo Banco Master.
A PF aponta que o suposto esquema envolvia a compra, recompra e substituição de carteiras de crédito, além de operações relacionadas a aumentos de capital do BRB e à tentativa de aquisição do Master pelo banco público.
Para os investigadores, parte das transações teria sido utilizada para sustentar operações bilionárias e manter o fluxo de recursos financeiros em direção ao Master.
As conclusões da Polícia Federal ainda serão submetidas à análise das autoridades responsáveis pela persecução penal. O indiciamento não representa condenação, e os investigados têm direito à ampla defesa.
Apesar do envio do relatório parcial ao Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal ainda não concluiu todas as diligências relacionadas ao caso.
A corporação solicitou mais 60 dias para finalizar perícias e aprofundar a investigação, especialmente sobre a origem dos créditos negociados e a movimentação de recursos entre as instituições.
A apuração também deverá examinar as justificativas apresentadas pelos investigados, incluindo a alegação de que os créditos questionados foram substituídos por outros ativos.
O caso segue sob análise do STF e poderá resultar em novos desdobramentos conforme a conclusão das diligências e a avaliação do Ministério Público Federal.
Enquanto Vorcaro sustenta que não houve fraude nem prejuízo ao BRB, a Polícia Federal aponta indícios de operações fraudulentas envolvendo pelo menos R$ 12,2 bilhões. A definição das responsabilidades dependerá da análise das provas e do andamento dos procedimentos judiciais.