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Caso Master: defesa de Vorcaro aponta alterações em celular apreendido pela PF
Perícia particular identificou centenas de arquivos criados e modificados após apreensão do aparelho; advogados questionam a integridade das provas, mas laudo não comprova adulteração intencional
30/10/2026 17h52
Por: Lavínia Dornellas
Foto: Reprodução

A defesa de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, apresentou ao Supremo Tribunal Federal (STF) uma perícia particular que aponta alterações em arquivos de seu celular depois que o aparelho foi apreendido pela Polícia Federal (PF). Segundo os advogados, foram identificados registros de 657 arquivos modificados e outros 436 criados enquanto o telefone já estava sob custódia das autoridades. O documento foi encaminhado à Justiça na quinta-feira (29), um dia depois de o empresário ser indiciado em uma investigação sobre suspeitas de fraudes bilionárias envolvendo o Banco de Brasília (BRB).

O celular foi apreendido em 17 de novembro de 2025, durante uma operação da PF. A análise foi contratada após Vorcaro afirmar que não reconhecia a autenticidade de uma série de conteúdos atribuídos a ele e divulgados publicamente.

Os advogados argumentam que as alterações registradas no dispositivo levantam dúvidas sobre a preservação das provas digitais utilizadas na investigação.

O próprio perito contratado pela defesa, porém, ressalta que os dados não permitem identificar quem realizou as alterações nem concluir que houve adulteração deliberada do conteúdo. 

Mais de mil arquivos foram criados ou modificados

A análise particular foi elaborada a partir de documentos periciais produzidos pela Polícia Federal e de dados extraídos do aparelho.

Segundo o relatório, no dia 18 de novembro de 2025, horas depois da apreensão, foram registrados:

A perícia também identificou registros de criação ou alteração de senhas durante o período em que o telefone estava sob responsabilidade das autoridades.

Entre os arquivos com modificações registradas aparece o banco de dados do WhatsApp, que armazena informações sobre conversas, chamadas e mídias do aplicativo.

A defesa considera esses registros relevantes porque o conteúdo do aparelho integra o conjunto de elementos utilizados nas investigações sobre o Banco Master.

Entretanto, registros de atividade de sistema, criação de arquivos e alterações de metadados não significam necessariamente que mensagens ou outros conteúdos tenham sido manipulados por uma pessoa.

Defesa questiona alterações após extração do conteúdo

Outro ponto levantado pelos advogados envolve a diferença entre a data de extração do conteúdo do telefone e os registros posteriores de modificação de arquivos.

Segundo a defesa, a extração foi realizada em 19 de novembro de 2025, mas o material disponibilizado pela PF contém 340 arquivos com datas de modificação em 13 e 14 de maio de 2026.

Entre os arquivos mencionados estão imagens relacionadas a alimentos de um aplicativo instalado antes da apreensão do celular.

Os advogados afirmam que não receberam explicações técnicas suficientes para esclarecer a origem dessas datas.

Para a defesa, a existência de registros posteriores à extração exige uma análise mais aprofundada da integridade do material.

A interpretação desses registros, no entanto, é contestada. Análises técnicas divulgadas pela imprensa apontam que parte dos eventos pode ser compatível com processos automáticos do sistema operacional do iPhone, incluindo manutenção de arquivos, reconhecimento facial e sincronização de dados.

No caso de algumas imagens, as datas identificadas podem estar relacionadas a registros internos de aplicativos, e não necessariamente à edição do conteúdo.

Até o momento, não foi demonstrado que as supostas alterações tenham modificado mensagens ou produzido provas falsas.

Perito não consegue identificar quem manuseou o celular

O relatório particular ressalta limitações importantes sobre o significado dos registros encontrados.

Segundo o perito, os dados analisados isoladamente não permitem determinar quem operou o aparelho, se houve intervenção humana intencional ou qual foi a extensão das modificações.

A defesa argumenta que, mesmo sem comprovação de uma intervenção deliberada, as ocorrências precisam ser esclarecidas para garantir a confiabilidade das provas.

O principal questionamento está relacionado à chamada cadeia de custódia, conjunto de procedimentos destinado a registrar como uma prova foi recolhida, armazenada, examinada e preservada ao longo de uma investigação.

Em provas digitais, esse controle é importante para permitir a verificação de que o material analisado corresponde ao conteúdo originalmente obtido pelas autoridades.

Os advogados afirmam que não há documentação suficiente para identificar todas as atividades registradas no celular durante o período de custódia policial.

A ausência de determinados registros, entretanto, não comprova por si só a adulteração do material apreendido.

Advogados pedem acesso aos dados originais

Com base na análise particular, a defesa de Vorcaro solicitou ao STF que determine a preservação e a disponibilização dos dados brutos originais extraídos do aparelho.

O objetivo é permitir uma nova verificação dos arquivos e dos procedimentos utilizados pela Polícia Federal.

Os advogados também questionam a possibilidade de utilização das provas sem que sua integridade seja esclarecida.

Em manifestação pública, a defesa afirmou que os registros encontrados exigem explicações técnicas e não deveriam ser desconsiderados.

Além do acesso ao material original, os representantes do empresário defendem sua soltura e sustentam que as dúvidas sobre as provas reforçam a necessidade de revisão das medidas adotadas contra ele.

A validade do conteúdo apreendido, porém, dependerá da avaliação judicial e de eventuais exames complementares.

A apresentação de uma perícia particular não provoca automaticamente a anulação das provas ou a libertação do investigado.

Vorcaro foi indiciado por suspeitas de fraudes no Banco Master

A nova iniciativa da defesa ocorre em um momento importante da investigação sobre as operações entre o Banco Master e o BRB.

Na quarta-feira (28), a Polícia Federal encaminhou ao STF um relatório parcial que resultou no indiciamento de Daniel Vorcaro e outras 14 pessoas.

A investigação apura suspeitas de gestão fraudulenta, organização criminosa, lavagem de dinheiro e irregularidades relacionadas à comercialização de carteiras de crédito.

Segundo a PF, o BRB adquiriu aproximadamente R$ 17,5 bilhões em ativos e carteiras do Banco Master, entre julho de 2024 e outubro de 2025.

Desse montante, pelo menos R$ 12,2 bilhões estariam relacionados a operações com créditos sem comprovação de existência.

Os investigadores apontam Vorcaro como o principal responsável pelas decisões que teriam permitido a realização das transações suspeitas.

O empresário nega ter cometido fraude e afirma que os ativos questionados foram substituídos por outros bens e direitos, sem prejuízo ao banco público.

O indiciamento representa uma conclusão da investigação policial, mas não equivale a uma condenação criminal.

Questionamento das provas abre nova disputa judicial

A perícia contratada pelos advogados acrescenta uma nova discussão ao Caso Master: a confiabilidade dos dados extraídos do celular de Vorcaro.

Enquanto a Polícia Federal utiliza informações do aparelho nas apurações sobre as operações financeiras do banco, a defesa tenta demonstrar que o material precisa passar por novas verificações antes de sustentar acusações.

A Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais também ressaltou que registros de alterações digitais não significam, necessariamente, adulteração de provas, já que equipamentos eletrônicos podem produzir atividades automáticas durante procedimentos técnicos.

O ponto central ainda não foi esclarecido: se os registros encontrados representam apenas operações normais do sistema ou se houve alguma alteração capaz de comprometer o conteúdo utilizado na investigação.

A resposta dependerá da análise dos dados originais, dos procedimentos periciais e das decisões do Supremo Tribunal Federal.

Até o momento, não há conclusão técnica apresentada que comprove manipulação intencional das provas pela Polícia Federal. A investigação sobre o Banco Master continua, enquanto a defesa busca questionar a validade dos elementos obtidos com o celular do empresário.