O Partido Democrata conquistou a maioria no Senado e na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos nas eleições de meio de mandato, realizadas nesta terça-feira (3), impondo uma derrota ao presidente Donald Trump. Com a apuração ainda em andamento nesta quarta-feira (4), os democratas já garantiram o controle das duas Casas do Congresso, encerrando a maioria republicana e alterando o equilíbrio de forças em Washington.
Segundo projeções divulgadas pela imprensa americana, os democratas conquistaram pelo menos 54 cadeiras no Senado, contra 44 dos republicanos, enquanto duas disputas ainda aguardavam definição. Na Câmara dos Representantes, o partido ultrapassou as 218 vagas necessárias para garantir a maioria, mas a distribuição final dos 435 assentos ainda depende da conclusão da contagem.
O resultado representa uma mudança significativa no cenário político americano. Desde o início do segundo mandato de Trump, em janeiro de 2025, os republicanos controlavam a Casa Branca, a Câmara e o Senado, permitindo ao presidente avançar em parte de sua agenda com apoio do Legislativo.
Agora, a oposição terá mais instrumentos para fiscalizar o governo e bloquear propostas defendidas pelo republicano.
Em uma reação pouco habitual, Donald Trump reconheceu o resultado e parabenizou seus adversários durante uma entrevista por telefone à Fox News, nesta quarta-feira.
“Bem, digo o seguinte: parabéns aos democratas. Eles fizeram um bom trabalho”, afirmou o presidente.
Apesar do reconhecimento, Trump procurou afastar a responsabilidade pessoal pelo desempenho do Partido Republicano.
“Eles esperavam por isso há 11 anos e, finalmente, conseguiram. Mas não encaro isso como um golpe contra mim”, declarou.
Durante a campanha, Trump havia se envolvido diretamente na mobilização do eleitorado republicano, participando de comícios, atacando candidatos democratas e defendendo a manutenção da maioria no Congresso.
O presidente também havia afirmado que a eleição seria uma das mais importantes da história americana.
Após a derrota, porém, passou a responsabilizar candidatos e integrantes do próprio partido pelo resultado desfavorável.
A vitória democrata foi impulsionada por resultados expressivos em estados onde os republicanos tradicionalmente apresentam forte desempenho eleitoral.
No Senado, o partido conquistou cadeiras anteriormente ocupadas pelos republicanos em Texas, Kansas, Iowa, Ohio, Maine, Carolina do Norte e Carolina do Sul.
Em Kansas, a eleição de um senador democrata representa uma mudança histórica, já que o estado não escolhia um candidato do partido para o cargo havia décadas.
No Texas, outra vitória importante ocorreu em uma região que apoiou Trump nas últimas eleições presidenciais.
Os resultados mostram uma mudança no comportamento de parte do eleitorado, especialmente diante de preocupações com o custo de vida, a inflação e a política externa do governo.
Pesquisas realizadas durante a eleição apontaram que a insatisfação com a economia e a guerra contra o Irã esteve entre os fatores que influenciaram o voto de muitos americanos.
A mudança no controle do Congresso poderá dificultar a aprovação de projetos prioritários da Casa Branca durante os dois últimos anos do mandato presidencial.
Com a maioria na Câmara, os democratas poderão assumir o comando de comissões parlamentares, convocar integrantes do governo para prestar esclarecimentos, solicitar documentos e abrir investigações sobre decisões da administração Trump.
O partido também terá maior influência sobre as discussões orçamentárias e poderá impedir a aprovação de propostas que dependam do Legislativo.
No Senado, a nova maioria poderá dificultar a confirmação de indicados pelo presidente para cargos do governo, embaixadas e tribunais federais.
Isso inclui eventuais indicações para a Suprema Corte dos Estados Unidos.
Trump continuará com a possibilidade de vetar leis aprovadas pelo Congresso, mas os democratas poderão negociar medidas a partir de uma posição mais favorável.
O presidente já havia sinalizado essa estratégia antes das eleições, afirmando que poderia se tornar o “Sr. Veto” caso a oposição conquistasse o Legislativo.
O controle democrata da Câmara também amplia a possibilidade de investigações sobre integrantes da administração republicana.
Entre os assuntos que poderão ser examinados estão contratos governamentais, possíveis conflitos de interesse, decisões relacionadas à guerra contra o Irã e medidas adotadas por meio de ordens executivas.
A oposição também poderá apresentar propostas para investigar a atuação de autoridades do governo.
Um eventual novo processo de impeachment contra Trump não está descartado, mas dependeria de articulação política e apoio parlamentar.
Nos Estados Unidos, a Câmara dos Representantes pode aprovar acusações contra o presidente por maioria simples.
Entretanto, uma condenação e eventual destituição do cargo exigem o voto favorável de dois terços dos senadores.
Mesmo com a maioria democrata no Senado, esse quórum elevado torna uma eventual destituição dependente do apoio de parte dos republicanos.
As eleições de meio de mandato são consideradas uma avaliação do desempenho do presidente em exercício.
Neste ano, Trump chegou à votação enfrentando desgaste político relacionado ao aumento do custo de vida e ao prolongamento do conflito com o Irã.
Uma pesquisa Reuters/Ipsos divulgada na segunda-feira (2) apontou que a aprovação do presidente estava em 32%, próxima dos níveis mais baixos registrados durante seu segundo mandato.
Durante a campanha, Trump tentou mobilizar os eleitores com promessas econômicas, incluindo a possibilidade de distribuir US$ 5 mil a cada cidadão adulto caso os republicanos mantivessem o controle do Congresso.
O resultado das urnas, entretanto, mostrou um avanço expressivo dos democratas, inclusive em estados tradicionalmente favoráveis ao Partido Republicano.
As eleições desta terça-feira renovaram todas as 435 cadeiras da Câmara dos Representantes e 35 das 100 vagas do Senado, incluindo eleições especiais.
Também foram realizadas disputas para governador em 36 estados americanos.
Os parlamentares eleitos assumirão os cargos em janeiro de 2027, quando terá início a nova legislatura.
Até lá, a apuração continuará em algumas regiões para definir a composição completa das duas Casas.
Com a vitória democrata, Trump perde o controle político do Congresso e terá de negociar com uma oposição fortalecida até o fim do mandato, em janeiro de 2029.
O resultado também altera as articulações para a eleição presidencial de 2028, quando os americanos escolherão o sucessor de Trump, que não poderá concorrer novamente por já ter sido eleito presidente duas vezes.