A intervenção do Banco Central do Paraguai (BCP) no Ueno Bank provocou protestos em Assunção, deixou milhões de clientes sem acesso imediato às suas economias e desencadeou uma crise política no governo do presidente Santiago Peña. A medida, anunciada na terça-feira (3), ocorreu após a identificação de problemas financeiros na instituição, uma das maiores do país. Horas depois, o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo, apresentou sua renúncia.
O Ueno Bank possui aproximadamente 2,9 milhões de clientes, número equivalente a quase metade da população paraguaia. Com a suspensão das operações, correntistas enfrentaram dificuldades para movimentar recursos, enquanto longas filas se formaram diante das agências bancárias.
Segundo o Banco Central, a intervenção foi determinada após a constatação de que o índice de solvência da instituição havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação. A autoridade monetária afirmou que a decisão busca proteger os depositantes e evitar impactos sobre o restante do sistema financeiro.
O bloqueio das operações provocou manifestações na capital paraguaia. Na terça-feira, clientes se concentraram diante das agências do Ueno Bank na tentativa de obter informações e recuperar o dinheiro depositado.
As dificuldades começaram ainda na segunda-feira (2), quando usuários relataram falhas no sistema bancário eletrônico e problemas para realizar transações.
No centro de Assunção, manifestantes cobraram explicações das autoridades e pediram a responsabilização dos envolvidos na crise.
Entre os participantes estava Marcelino Vergara, de 68 anos, que afirmou à agência AFP ter perdido o acesso às economias acumuladas durante a vida.
“Perdi todas as economias da minha vida, só tenho 8 mil guaranis (R$ 7,35). Todos devem ir para a prisão”, declarou, emocionado.
Alguns manifestantes também exibiram cartazes pedindo o impeachment do presidente Santiago Peña, cuja relação anterior com o grupo empresarial ligado ao banco passou a ser questionada pela oposição.
Diante da preocupação dos correntistas, o Banco Central anunciou um mecanismo emergencial para iniciar a devolução dos recursos.
Segundo comunicado oficial, os clientes receberão um primeiro pagamento de até 10 milhões de guaranis, aproximadamente R$ 9,2 mil, por meio do Fundo de Garantia de Depósitos.
O valor corresponde a uma primeira etapa do processo, e não necessariamente ao limite total de proteção oferecido aos depositantes.
Pelas regras paraguaias, a garantia pode alcançar 75 salários mínimos por pessoa e por instituição financeira, atualmente equivalentes a 228,3 milhões de guaranis. Na cotação atual, seria aproximadamente R$ 205.951,80 ou US$ 38.000,00.
As autoridades informaram que ainda serão definidos os procedimentos e os prazos de pagamento.
O Banco Central também afirmou que a crise é específica do Ueno Bank e não representa, segundo sua avaliação, um problema generalizado no sistema bancário do Paraguai.
A crise provocou a saída de Carlos Carvallo, que comandava o Banco Central paraguaio desde 2023.
Antes de assumir o órgão regulador, Carvallo havia presidido a financeira Ueno, posteriormente transformada no Ueno Bank.
A ligação anterior com a instituição colocou sua atuação como regulador no centro dos questionamentos políticos.
Na manhã de terça-feira, Carvallo anunciou que pretendia deixar o cargo para reduzir as controvérsias em torno do processo de intervenção.
Segundo ele, o afastamento permitiria que os técnicos do Banco Central trabalhassem sem interferências provocadas pelo debate político.
Horas depois, o presidente Santiago Peña solicitou publicamente sua renúncia. Carvallo formalizou a saída e comunicou a decisão ao Senado.
O presidente paraguaio também passou a enfrentar pressão da oposição por sua antiga relação empresarial com o grupo controlador do Ueno Bank.
Antes de assumir a Presidência, em 2023, Peña possuía participação em uma empresa vinculada ao grupo financeiro. Segundo informações divulgadas pela imprensa internacional, ele se desvinculou do investimento em março de 2025.
O senador oposicionista Rafael Filizzola acusa o governo de favorecer a instituição e questiona a concentração de recursos públicos no banco.
De acordo com o parlamentar, os prejuízos associados à crise podem superar US$ 3 bilhões, cerca de R$ 16,47 bilhões.
O valor apresentado por Filizzola é uma estimativa da oposição e não representa um prejuízo definitivo confirmado pelas autoridades financeiras.
O senador também afirmou que parlamentares trabalham na elaboração de uma acusação para tentar abrir um processo de impeachment contra Peña.
As acusações de favorecimento político ainda dependem de investigação e não demonstram, por si só, participação do presidente em eventuais irregularidades.
Em razão da crise, Peña cancelou uma viagem prevista a Madri, onde participaria da 30ª Cúpula Ibero-Americana.
A crise também chegou à esfera criminal.
A Justiça paraguaia determinou a prisão de oito dirigentes vinculados ao Ueno Bank, em meio às investigações sobre a situação financeira da instituição.
Entre os investigados está Miguel Vázquez Villasanti, integrante da direção do banco, que se apresentou às autoridades acompanhado de seus advogados.
A defesa informou que ele decidiu comparecer voluntariamente para ficar à disposição da Justiça.
O Ministério Público investiga possíveis irregularidades financeiras e responsabilidades pela deterioração da situação patrimonial da instituição.
A abertura das investigações e as ordens de prisão não representam condenações dos envolvidos.
Além dos depósitos de pessoas físicas e empresas privadas, o Ueno Bank administra recursos de instituições públicas paraguaias.
Segundo informações divulgadas pela Reuters, aproximadamente US$ 850 milhões em fundos públicos estavam vinculados à instituição.
Entre os recursos que preocupam as autoridades estão valores de órgãos estatais e do sistema previdenciário.
Nesta quarta-feira (4), a Câmara dos Deputados do Paraguai deve analisar, em sessão extraordinária, uma proposta para ampliar excepcionalmente a garantia dos depósitos públicos mantidos no banco.
A intenção é proteger recursos do Estado e de instituições como o Instituto de Previdência Social (IPS).
Enquanto o governo tenta organizar a devolução dos depósitos, a crise do Ueno Bank amplia a pressão sobre Santiago Peña e levanta questionamentos sobre a fiscalização do sistema financeiro paraguaio.
A situação dos correntistas permanece indefinida, com parte dos recursos bloqueada e o processo de intervenção ainda em andamento.