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Operação contra bets ilegais mira esquema bilionário em Goiás
Polícia Civil cumpre mandados em Goiânia, Planaltina de Goiás e Valparaíso de Goiás; investigação aponta uso de empresas de fachada, Pix e fintechs para movimentar dinheiro de apostas clandestinas
05/11/2026 18h02
Por: Redação
Foto: Reprodução

Três cidades de Goiás estão entre os alvos da Operação Azzardo, deflagrada nesta quinta-feira (5) pela Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), para investigar um esquema bilionário de apostas ilegais e lavagem de dinheiro. Mandados de busca e apreensão são cumpridos em Goiânia, Planaltina de Goiás e Valparaíso de Goiás. Segundo a investigação, o grupo utilizava empresas de fachada, contas bancárias e instituições financeiras para movimentar recursos provenientes de plataformas de apostas sem autorização federal.

A operação mobilizou aproximadamente 200 policiais civis de seis unidades da Federação. Ao todo, são cumpridos 50 mandados de busca e apreensão, sendo 24 no Distrito Federal e outros 26 distribuídos entre Goiás, São Paulo, Paraná, Ceará e Rio Grande do Norte.

De acordo com a PCDF, os municípios goianos integram a rede de atuação financeira e empresarial investigada. Até o momento, as autoridades não detalharam quais empresas ou pessoas foram identificadas especificamente em Goiás nem o volume de dinheiro movimentado no estado.

Esquema usava até lojas de tarô para receber dinheiro de bets

As investigações começaram há cerca de cinco meses, após a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda identificar sites de apostas que funcionavam sem autorização do governo federal.

Durante simulações de pagamentos, os investigadores descobriram que os valores enviados pelos apostadores por meio do Pix não eram transferidos diretamente às plataformas de apostas.

O dinheiro era encaminhado a contas bancárias de empresas que, oficialmente, exerciam atividades sem relação com o setor.

Entre os estabelecimentos identificados estavam uma loja de tarô e uma clínica de assistência psicossocial, ambas registradas em Sobradinho, no Distrito Federal.

Segundo a polícia, essas empresas seriam utilizadas para receber pagamentos, concentrar recursos e repassá-los a outras pessoas jurídicas, pessoas físicas e instituições financeiras.

As apurações identificaram dezenas de empresas abertas entre fevereiro e julho de 2026, muitas com o mesmo capital social, endereços compartilhados e informações cadastrais semelhantes.

Em Ceilândia, por exemplo, dez empresas utilizavam o mesmo telefone e declaravam um único lote como endereço comercial.

Durante as diligências, os policiais também encontraram imóveis vazios ou ocupados por estabelecimentos diferentes daqueles registrados oficialmente.

Parte do dinheiro teria sido convertida em criptomoedas, o que, segundo os investigadores, poderia dificultar a identificação da origem e do destino dos recursos.

 

Fintech investigada movimentou cerca de R$ 1 bilhão

A análise financeira identificou aproximadamente R$ 739 milhões em movimentações relacionadas à rede investigada.

Outro núcleo da apuração envolve uma fintech sediada em São Paulo, autorizada pelo Banco Central a funcionar como sociedade de crédito direto.

Segundo a PCDF, a instituição mantinha contas utilizadas por empresas suspeitas de receber pagamentos das plataformas clandestinas.

Dados analisados pelos investigadores apontam que a fintech e outras empresas do mesmo grupo movimentaram cerca de R$ 1 bilhão, incluindo transferências para pessoas jurídicas investigadas e pagamentos relacionados a sites de apostas não autorizados.

A polícia identificou ainda movimentações envolvendo empresas que apresentavam frequentes mudanças de procuradores.

Em julho deste ano, o Banco Central havia divulgado a intenção de cancelar a autorização de funcionamento da instituição financeira.

Os valores de R$ 739 milhões e R$ 1 bilhão correspondem a movimentações identificadas em diferentes frentes da investigação e não devem ser interpretados, isoladamente, como lucro obtido pelo grupo.

Justiça autoriza bloqueio de até R$ 3,48 bilhões

Diante das suspeitas, o Juízo das Garantias de Sobradinho autorizou o bloqueio de contas e ativos financeiros de 64 pessoas físicas e 120 pessoas jurídicas, até o limite global de R$ 3,483 bilhões.

A decisão também determinou a suspensão dos CNPJs e registros comerciais de 100 empresas e empresários individuais.

Os investigados ficaram proibidos de abrir novas contas bancárias pelo período de 90 dias.

A Justiça autorizou ainda o afastamento dos sigilos bancário e fiscal de 82 pessoas físicas e 83 pessoas jurídicas.

O valor de R$ 3,483 bilhões representa o limite máximo autorizado para os bloqueios judiciais, e não a quantia efetivamente encontrada ou apreendida pela polícia.

No caso da fintech investigada, as restrições atingem apenas os recursos próprios da instituição, sem alcançar valores de clientes que não são alvo das apurações.

Empresas tinham autorizações de loterias estaduais

A investigação também identificou três empresas que possuíam autorizações de loterias estaduais do Rio de Janeiro e da Paraíba.

Segundo a PCDF, essas permissões eram limitadas a determinados territórios, marcas e plataformas e não abrangiam os sites de apostas investigados.

Além disso, as autorizações estaduais não substituíam a exigência de autorização federal para a exploração das apostas de quota fixa em âmbito nacional.

As empresas entraram na investigação após a identificação de vínculos societários e movimentações financeiras consideradas suspeitas.

Durante o cumprimento dos mandados, os policiais buscam documentos, aparelhos celulares, computadores e registros de transações financeiras e de criptoativos.

O objetivo é identificar os responsáveis pelo controle das plataformas clandestinas e os beneficiários finais do dinheiro movimentado.

Os investigados poderão responder, conforme a participação individual apurada, por exploração de loteria não autorizada, estelionato mediante fraude eletrônica, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica e organização criminosa.

Segundo as informações divulgadas sobre a operação, as penas previstas para os crimes investigados podem chegar a 33 anos de prisão, dependendo das acusações e das circunstâncias de cada caso.

A Operação Azzardo segue com a análise dos materiais apreendidos e o rastreamento das movimentações financeiras. Em Goiás, a investigação deverá esclarecer a participação das pessoas e empresas ligadas ao esquema e identificar quanto dinheiro passou pelas estruturas localizadas nos três municípios alvos.