
O comandante do Bope, tenente-coronel Marcelo Corbage, afirmou ao Ministério Público que os policiais envolvidos na megaoperação dos complexos do Alemão e da Penha, em 28 de outubro, foram vítimas de uma armadilha montada por traficantes entrincheirados, e negou que a tropa tenha montado uma emboscada — ação que resultou em 121 mortes.
Corbage descreveu que o batalhão realizou “operações-ensaio” durante 75 dias em diferentes comunidades dominadas pelo Comando Vermelho para avaliar a resistência dos criminosos. Após esses testes, e diante do ferimento grave de um policial, decidiu-se pela entrada no Alemão com “força de infantaria”. Segundo ele, traficantes já estavam posicionados em bunkers na serra da Misericórdia, o que teria transformado o ambiente em uma armadilha.
O comandante também revelou que apenas 77 dos 215 policiais do Bope utilizaram câmeras corporais na operação, descumprindo determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). Pela Polícia Civil, menos da metade dos agentes também estava equipada. Ele justificou que o batalhão não planejou baterias extras porque a previsão inicial era de cinco horas de ação, que acabou durando 17.
Segundo o depoimento, a operação, inicialmente planejada apenas para cumprir mandados de prisão, se transformou em um resgate após policiais civis serem feridos dentro da comunidade. No socorro, dois agentes do Bope morreram e outros sete ficaram feridos. Corbage afirmou que os criminosos demonstraram “agressividade inédita” e adotaram estratégias não vistas antes em confrontos desse tipo.
O comandante disse ainda que o uso de gás lacrimogêneo buscou reduzir a letalidade, na expectativa de que os criminosos se rendessem. Após os confrontos, 37 suspeitos foram presos, e 32 corpos foram encontrados pela Delegacia de Homicídios em diferentes pontos do complexo, já sem vida.
A Promotoria questionou se vazamento de informações poderia ter facilitado a reação dos traficantes, mas Corbage atribuiu a possível percepção dos criminosos à movimentação das tropas nos dias anteriores.
Outro oficial ouvido pelo Ministério Público estimou que cerca de 800 criminosos estariam na área de mata no dia da operação, indicando que o confronto pode ter sido maior do que o previsto inicialmente.
O Ministério Público do Rio segue analisando os depoimentos e avaliando se houve falhas táticas, descumprimento de protocolos ou irregularidades na operação. O caso está sob supervisão do STF no âmbito da ADPF das Favelas.