
Um termo de compromisso da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) de Goiânia prevê o pagamento médio de R$ 2.140 por atendimento odontológico preventivo realizado por uma associação recém-regularizada e sem sede própria. O repasse total, de R$ 533,7 mil, foi destinado via emenda impositiva do ex-vereador Sandes Júnior para a Associação Cooperar Mais Ação, cujo CNPJ até novembro de 2024 estava em nome do vereador Igor Franco (MDB).
O CNPJ da entidade ficou registrado em nome de Igor Franco até 4 de novembro de 2024, quando foi transferido para a dentista Helen Maria Lima, apoiadora do parlamentar no mandato anterior. A sede informada é um escritório de coworking no Setor Bueno, usado apenas como endereço fiscal.
O plano de trabalho aprovado pela SMS descreve atendimento amplo, porém vago e não especializado, incluindo consultas, triagens, restaurações básicas e orientações de saúde bucal — serviços que já são oferecidos pela rede pública. A promessa é atender 250 pessoas em 10 meses, com 25 pacientes por mês.
A entidade informou que o foco seriam crianças e adolescentes em vulnerabilidade, mulheres vítimas de violência, alunos da rede pública e moradores próximos ao consultório particular alugado. Segundo Helen, cada paciente teria atendimento “completo”, com cinco restaurações, duas remoções de cáries, limpeza, aplicação de flúor e triagem em mutirões.
A planilha entregue ao município lista R$ 333 mil apenas para “tratamento preventivo/curativo” — R$ 1.332 por paciente.
Outros custos previstos:
R$ 60 mil pelo aluguel de um consultório particular por 12 meses;
R$ 40 mil para o coordenador geral;
R$ 22 mil para auxiliar de odontologia;
R$ 20 mil para ações de mídia.
A Cooperar Mais Ação tem apenas quatro integrantes na diretoria, incluindo Helen como presidente. Documentos mostram ligações das dirigentes com Xinguara (PA), reduto eleitoral de Igor Franco e de seu irmão, Diogo Franco.
Helen afirma que a associação não existe “só no papel” e que já realizou ações sociais, como entrega de cestas básicas. Ela confirma que atenderá todos os pacientes sozinha.
A emenda de Sandes Júnior foi apresentada em dezembro de 2024, dias depois da transferência do CNPJ para Helen. À época, o ex-vereador disse desconhecer que o registro estava em nome de Igor e defendeu que todo tratamento odontológico é caro.
O vereador afirma que não tem ligação com a dentista ou com a associação após a transferência, mas admitiu que o CNPJ foi repassado a ela por ter “aptidão” para cuidar da entidade.
A Secretaria Municipal de Saúde argumenta que o valor não cobre apenas consulta, mas “todo o tratamento preventivo e corretivo”, incluindo radiografias, extrações, restaurações e raspagem, conforme necessidade de cada paciente.
A pasta afirma que:
os valores podem ser ajustados segundo o caso clínico;
a entidade terá de comprovar cada procedimento na prestação de contas;
em caso de irregularidades, pode haver devolução de recursos e sanções.
A prefeitura, porém, mantém sob sigilo o plano de trabalho detalhado e as etapas de prestação de contas, que não ficam disponíveis ao público.