
A Otan elevou o tom contra Moscou nesta segunda-feira (1º), após o chefe do Comitê Militar da aliança, almirante Giuseppe Cavo Dragone, sugerir que o bloco pode considerar ações preventivas para conter a chamada guerra híbrida promovida pela Rússia na Europa. A declaração aumentou a tensão diplomática em meio às negociações conduzidas pelo governo Donald Trump para tentar encerrar a Guerra da Ucrânia.
Em entrevista ao Financial Times, Dragone afirmou que a aliança estuda medidas mais “agressivas ou proativas” para dissuadir ataques cibernéticos, sabotagens e operações clandestinas atribuídas ao Kremlin.
“No ciberespaço, estamos reagindo. Estamos pensando se devemos ser mais proativos. A dissuasão pode ocorrer por retaliação ou ataque preventivo — isso precisa ser analisado profundamente”, disse o almirante.
O comitê liderado por Dragone é o principal órgão de assessoramento militar da Otan e influencia as diretrizes estratégicas dos 32 países membros.
Moscou classificou a fala como “extremamente irresponsável” e disse que ela demonstra “desejo de confronto” por parte da aliança.
A Rússia costuma negar envolvimento em operações secretas no continente europeu, afirmando que acusações recorrentes de sabotagem são “russofobia”.
A escalada verbal ocorre dias após a explosão em uma ferrovia polonesa, atribuída por serviços de inteligência do Leste Europeu à ação russa. O Kremlin rejeita as suspeitas.
Na semana passada, Vladimir Putin afirmou que a ideia de um ataque da Rússia à Otan — o que desencadearia uma guerra global — é “ridícula”, e acusou países europeus de prolongarem a guerra para enfraquecer Moscou.
Dragone citou a operação Sentinela Báltico como exemplo de proatividade militar sem escalada direta. A patrulha constante da Otan reduziu a zero os incidentes de danos a cabos submarinos de energia e dados observados entre 2023 e 2024 no mar Báltico.
Ainda assim, episódios de tensão continuam, como a recente denúncia da Belarus — aliada da Rússia — de que um drone lituano teria violado seu espaço aéreo para espionagem e lançamento de panfletos. Vilnius nega.
As declarações da Otan ocorrem em meio a negociações promovidas pelo governo Donald Trump para tentar encerrar o conflito iniciado pela Rússia em 2022. O prazo inicial imposto por Washington, que se encerrava na quinta-feira (27), já caiu diante da complexidade das tratativas.
Durante o fim de semana, representantes ucranianos e americanos se reuniram na Flórida. Os diálogos sofreram um abalo com a demissão de Andrii Iermak, principal assessor de Volodimir Zelenski, após uma batida anticorrupção em sua casa.
Iermak era responsável por revisar uma proposta de cessar-fogo articulada pelo negociador americano Steve Witkoff e pelo russo Kirill Dmitriev. A versão alterada pelo lado ucraniano foi rejeitada por Moscou, embora os russos sigam abertos a ajustes.
Witkoff deve se encontrar novamente com Putin nesta terça-feira (2), em Moscou — a sexta reunião entre os dois somente neste ano. Há expectativa de que Jared Kushner, genro de Trump, acompanhe o encontro.
Países europeus temem que concessões consideradas “excessivas” à Rússia voltem à mesa de negociações, já que Witkoff é visto como simpático ao Kremlin.
Diante do cenário instável, Zelenski viajou a Paris para reunião com Emmanuel Macron. O presidente francês tenta coordenar uma resposta europeia mais consistente e critica o que considera uma possível “capitulação forçada de Kiev”.
Após o encontro, Zelenski afirmou nas redes que “a guerra precisa acabar o mais rápido possível” e que “muito depende do envolvimento de cada líder”.
Enquanto a diplomacia se movimenta, o conflito continua. Nesta segunda-feira, um ataque com mísseis atingiu Dnipro, no centro da Ucrânia, matando quatro pessoas e ferindo outras 40.