
O mercado ilegal de armas no Sudeste passou por uma transformação acelerada nos últimos anos. É o que mostra o estudo inédito “Arsenal do Crime”, do Instituto Sou da Paz, que analisou 255.267 armas apreendidas no Espírito Santo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo entre 2018 e 2023. O levantamento aponta uma migração significativa: revólveres antigos vêm sendo substituídos por pistolas novas, semiautomáticas e de calibres mais potentes, como o 9x19mm, liberado para civis em 2019.
Segundo o estudo, a modernização do arsenal criminoso acompanha o período de flexibilização das regras de controle de armamentos, que ampliou o acesso da população civil a armas antes restritas às forças de segurança. Parte dessas armas foi desviada para o mercado ilegal — como no caso recente de um CAC em Cotia, cujo acervo abasteceu facções.
A análise aponta que a mudança política iniciada em 2019 impactou diretamente o perfil das armas apreendidas. O calibre 9mm, por exemplo, quase triplicou a presença nas apreensões no Sudeste após sua liberação para civis. As pistolas semiautomáticas superaram os revólveres em estados como ES, MG e RJ. Além disso, houve um aumento de 55,8% nas apreensões de fuzis, submetralhadoras e metralhadoras, armamentos com maior capacidade de disparo e potencial lesivo.
Os novos equipamentos elevam o risco em confrontos urbanos, já que carregam mais munição, possuem maior cadência de tiro e ampliam o alcance da violência armada, afetando tanto civis quanto agentes de segurança.
O estudo apresenta um retrato detalhado do arsenal apreendido na região Sudeste. Revólveres ainda são maioria, mas sua participação vem caindo, enquanto pistolas ganham peso nas ocorrências.
Tipos de armas apreendidas:
40,6% revólveres
27,9% pistolas
17,9% espingardas
Calibres mais frequentes:
23,2% .38 Special
12,6% .32 SW Long
10,2% 9x19mm
Origem das armas:
57,3% Brasil
4,1% Estados Unidos
3,3% Áustria
O Instituto Sou da Paz destaca que fortalecer unidades especializadas, padronizar bancos de dados e ampliar a rastreabilidade são medidas essenciais para tornar o combate ao tráfico de armas mais eficiente. Sem informações completas, afirmam os pesquisadores, o enfrentamento ao mercado ilegal ocorre “às cegas”.
Para o Instituto Sou da Paz, o estudo evidencia que decisões políticas recentes tiveram impacto direto no armamento disponível para o crime organizado. A entidade defende a revisão das regras de acesso, maior controle sobre CACs, aprimoramento no rastreamento de armas e integração entre os sistemas estaduais e federais.
O relatório conclui que compreender como o arsenal do crime se transforma é fundamental para reduzir o poder de fogo das facções e proteger a população. A modernização dos armamentos, se não contida, tende a consolidar cenários de violência extrema, sobretudo em regiões densamente urbanizadas como o Sudeste.