
Profissionais de imprensa realizaram, nesta quarta-feira (10), um ato na Câmara dos Deputados contra a censura e as agressões cometidas por policiais legislativos durante a sessão da noite anterior. O protesto ocorreu após jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas serem expulsos do plenário enquanto o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) era retirado à força da cadeira da presidência da Casa. No mesmo instante, a transmissão da TV Câmara foi interrompida, impedindo o registro audiovisual oficial do episódio.
A Associação Brasileira de Imprensa (ABI) afirmou que ingressará com ações judiciais contra o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), por considerar que houve violação à liberdade de imprensa, agressões físicas e abuso de autoridade dentro do Parlamento.
De acordo com relatos e vídeos gravados por parlamentares que estavam no plenário, policiais legislativos empurraram, puxaram e deram cotoveladas em profissionais da imprensa que tentavam registrar a ação contra Glauber Braga. Alguns precisaram de atendimento médico.
Durante a operação, o sinal da TV Câmara foi imediatamente cortado, interrompendo a transmissão ao vivo da sessão — o que entidades classificam como censura estatal. Os jornalistas foram retirados à força do plenário, apesar de estarem em área de trabalho autorizada.
O presidente da Câmara não compareceu à reunião marcada com representantes do comitê de imprensa para tratar do episódio e enviou apenas uma assessora. Em nota divulgada ontem, Hugo Motta afirmou que determinou a "apuração de possíveis excessos", sem reconhecer responsabilidade pelo ocorrido.
A Associação Brasileira de Imprensa informou que adotará três frentes de responsabilização:
• representação na Procuradoria-Geral da República por crime de responsabilidade;
• denúncia à Relatoria Especial de Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (OEA);
• representação na Comissão de Ética da Câmara por quebra de decoro e infração disciplinar.
A entidade classificou o episódio como um ataque direto à liberdade de imprensa e ao direito da sociedade de acompanhar os atos do Parlamento.
Parlamentares de partidos da base governista — PSOL, PT e PDT — também protocolaram representação criminal na PGR contra Hugo Motta. O documento menciona lesão corporal, violência política de gênero e abuso de autoridade. Segundo a denúncia, a ação truculenta da polícia legislativa teria sido realizada sob ordem direta da presidência da Casa, o que Motta nega.
O procurador-geral da República, Paulo Gonet, avaliará se há elementos suficientes para abertura formal de investigação.
A reunião que deveria ocorrer entre Hugo Motta e representantes da imprensa foi cancelada de última hora, aumentando o desgaste político do episódio. Para entidades jornalísticas e parlamentares, o corte da transmissão oficial e a expulsão dos jornalistas representam uma violação grave dos princípios de transparência do Poder Legislativo.
Com as câmeras da Casa desligadas e profissionais impedidos de trabalhar, as únicas imagens da ação vieram de celulares de deputados presentes. Para juristas e organizações de imprensa, o cenário configura risco institucional ao controle social sobre o Parlamento.
A PGR deverá decidir nos próximos dias se pedirá esclarecimentos formais ou se abrirá investigação para apurar responsabilidades. Enquanto isso, a ABI e outras organizações de defesa da liberdade de imprensa intensificam articulações para que o caso não seja tratado como episódio isolado, mas como violação sistêmica que exige resposta institucional.