
A Prefeitura de Goiânia articula junto à Câmara Municipal a autorização para contratar um empréstimo de R$ 132 milhões junto ao BNDES, com o objetivo de promover uma ampla transformação digital na administração pública. O projeto prevê a modernização de sistemas considerados obsoletos, a integração de bases de dados, a digitalização de serviços e a criação de um portal único de atendimento ao cidadão, além do desenvolvimento de uma inteligência artificial própria, batizada de GoiânIA.
Segundo a gestão, os investimentos serão executados ao longo dos próximos dois anos e têm como foco recompor a infraestrutura tecnológica da Prefeitura, considerada insuficiente para sustentar serviços digitais modernos. O plano inclui ainda a criação de aplicativo, ampliação da capacidade de processamento, segurança da informação e conectividade. Apesar disso, a proposta levanta questionamentos de especialistas quanto ao detalhamento do projeto, aos valores envolvidos e ao risco de repetição de iniciativas semelhantes que não avançaram em administrações anteriores.
O secretário municipal de Inovação e Transformação Digital, Fábio Christino, afirma que a Prefeitura herdou um ambiente tecnológico “literalmente sucateado”, sem investimentos relevantes em infraestrutura nos últimos cinco anos. Segundo ele, a administração vinha operando no limite, apenas para evitar a interrupção de serviços.
De acordo com Christino, o financiamento será direcionado principalmente à recomposição da base tecnológica, estruturada em quatro camadas: modernização da infraestrutura física e de servidores; melhoria da governança e da qualidade dos dados; integração e atualização dos sistemas existentes; e criação de plataformas digitais voltadas ao cidadão. A execução, segundo o secretário, ocorrerá de forma simultânea, com diferentes frentes avançando ao mesmo tempo.
Entre as entregas anunciadas está o lançamento, já a partir de janeiro, de um portal único de serviços, reunindo atendimentos hoje fragmentados ou presenciais. A proposta é permitir que o cidadão resolva demandas administrativas, urbanas e tributárias diretamente pelo celular. Christino afirma que parte das soluções já está em desenvolvimento interno, mas que a ampliação depende do reforço da capacidade computacional.
Apesar do discurso de modernização, especialistas veem fragilidades no projeto apresentado ao Legislativo. Para o presidente do Centro de Excelência em Gestão Pública, André Tomazetti, a proposta é genérica e se assemelha a programas lançados em gestões anteriores, como o Atende Fácil e o aplicativo Prefeitura 24 Horas, que não se consolidaram.
Segundo Tomazetti, o principal problema histórico da administração municipal não é tecnológico, mas de processos e governança. Ele avalia que, sem o redesenho dos fluxos internos, a adoção de novos sistemas tende a reproduzir práticas analógicas, como impressão, carimbos e retrabalho digital. “Quando você coloca tecnologia sem corrigir o processo, você só cria mais um problema para o servidor”, afirma.
O prefeito Sandro Mabel defende que a digitalização é estratégica também para aumentar a arrecadação e melhorar o controle fiscal, por meio do cruzamento de dados e do uso de inteligência artificial para identificar inconsistências tributárias. Segundo ele, o portal será baseado no conceito de “human centered”, colocando o cidadão no centro dos serviços públicos.
O projeto de empréstimo ainda depende de aprovação da Câmara de Goiânia e da análise final do BNDES. A expectativa do Paço é iniciar as contratações no primeiro semestre de 2026, caso os recursos sejam liberados.