
Manifestações iniciadas no fim do ano se alastraram por diversas regiões do Irã, configurando o mais sério desafio ao sistema teocrático que governa o país desde 1979 desde a onda de protestos de 2022 e 2023. O movimento começou motivado pela crise econômica, mas rapidamente passou a direcionar críticas ao próprio regime dos aiatolás.
De acordo com a rede de ativistas Hrana, sediada nos Estados Unidos, ao menos 36 pessoas morreram e 2.076 foram detidas entre 28 de dezembro e esta quarta-feira (7). O líder supremo, Ali Khamenei, afirmou que o governo não irá “ceder aos inimigos” e autorizou o reforço das ações de segurança.
O gatilho inicial foi a deterioração das condições de vida. A inflação encerrou 2025 em 42,5%, enquanto o rial perdeu cerca de metade do valor frente ao dólar ao longo do ano. A pressão é sentida sobretudo pela classe média urbana, altamente dependente de produtos importados, cujo custo disparou.
Com o avanço das mobilizações, as pautas se ampliaram. Assim como ocorreu após a morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia religiosa, em 2022, o descontentamento passou a atingir diretamente a legitimidade do regime.
Levantamento divulgado pelo serviço persa da BBC indica protestos em 17 das 31 províncias iranianas. O Judiciário prometeu resposta dura. O chefe do poder, Gholamhossein Mohseni Ejei, declarou que não haverá tolerância com quem “auxiliar inimigos da República Islâmica”.
A fala faz referência ao apoio público de Israel e do presidente americano Donald Trump aos manifestantes. Trump afirmou que poderá intervir militarmente caso a repressão estatal resulte em mais mortes — declaração que elevou a tensão regional.
Um dos principais epicentros dos atos fica no oeste do país, próximo à fronteira com o Iraque. Na província de Ilam, uma das mais pobres e militarizadas, vídeos mostraram manifestantes armados disparando para o alto, sinalizando risco de escalada. A região tem maioria curda, o que historicamente amplia o atrito com Teerã.
Segundo a agência Fars, ligada à Guarda Revolucionária, um funeral em Malekshahi terminou com repressão a tiros após novos protestos. Em grandes centros como Teerã, Shiraz e Isfahan, os atos ocorrem de forma mais pontual — com destaque para bazares da capital, onde surgiram cartazes pedindo intervenção americana.
Para irritação do regime, o herdeiro da monarquia deposta em 1979, Reza Pahlavi, exilado nos EUA, convocou novas manifestações e protestos simbólicos nas janelas das casas em horários marcados.
A atual teocracia surgiu após a derrubada do xá (rei) Mohammad Reza Pahlavi, que governou desde 1941 e foi visto por opositores como aliado excessivamente próximo do Ocidente. A revolução foi liderada pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, dando início à hostilidade com EUA e Europa.
Hoje, Khamenei, aos 86 anos, enfrenta um cenário de fragilidade: saúde debilitada, ausência de sucessor claro após a morte do presidente Ebrahim Raisi em 2024 e crescente pressão externa. Analistas avaliam que a combinação desses fatores torna este um dos momentos mais delicados do regime desde sua instalação há mais de quatro décadas.