
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou pela primeira vez de forma explícita que seu governo está deslocando uma “grande força” militar em direção ao Irã. A declaração foi feita a jornalistas a bordo do Air Force One, durante o retorno de Davos para os EUA, após sua participação no Fórum Econômico Mundial.
“Estamos enviando uma grande armada naquela direção e veremos o que acontece. Preferia que nada acontecesse, mas estamos monitorando de perto”, disse Trump, indicando que a mobilização pode ir além do discurso político e se transformar em ação concreta.
Nos últimos dias, os Estados Unidos intensificaram de forma significativa sua presença militar no Oriente Médio. Deslocou aviões de ataque F-15E, caças de apoio aproximado A-10, dezenas de cargueiros e mais de 30 aeronaves de reabastecimento, além de sistemas de defesa antiaérea. Dois grupos de porta-aviões também foram mobilizados.
De acordo com analistas militares israelenses, o grupo liderado pelo USS Abraham Lincoln já ingressou na área de responsabilidade do Comando Central dos EUA, no mar da Arábia. Já o grupo do USS George H. W. Bush navega com sistemas de rastreamento desligados, possivelmente entre o Atlântico Norte e o Mediterrâneo, podendo alcançar a costa de Israel em cerca de uma semana.
A escalada ganhou novo elemento após o Reino Unido confirmar o envio de caças Typhoon para a base de Al-Udeid, no Catar, a maior instalação militar americana na região. Esses aviões já foram utilizados em operações contra os houthis no Iêmen, aliados do Irã.
Trump vinha ameaçando Teerã em razão da repressão violenta a protestos iniciados em 28 de dezembro, que se transformaram na maior onda de contestação ao regime desde a Revolução Islâmica de 1979. Em momentos anteriores, o presidente americano chegou a sinalizar recuo, afirmando ter recebido garantias de que não haveria execuções de manifestantes.
Paralelamente, o republicano elevou a tensão com aliados europeus ao exigir controle sobre a Groenlândia, o que levou países da Otan a se mobilizarem diplomaticamente. Em Davos, Trump voltou a defender a anexação da ilha, embora tenha afirmado que não recorreria ao uso da força e suspendido tarifas contra a Dinamarca e outros aliados europeus.
Analistas avaliam que a retórica contra o Irã pode servir tanto como pressão estratégica quanto como manobra política para desviar o foco do impasse com a Europa. Ainda assim, aliados regionais dos EUA demonstraram cautela. Países árabes temem impactos no Estreito de Hormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás liquefeito comercializados no mundo.
Israel, principal aliado americano na região, também teria sugerido prudência. Há divergências sobre os motivos: desde a necessidade de recompor sistemas de defesa após confrontos recentes até a avaliação de que apenas uma ação mais ampla poderia enfraquecer de forma definitiva o regime dos aiatolás.
O governo iraniano afirmou nesta semana que os protestos foram completamente reprimidos e divulgou um balanço oficial de 3.000 mortos. Organizações de direitos humanos no exterior estimam que o número real seja bem superior, ultrapassando 4.500 vítimas. Um apagão prolongado da internet dificulta a verificação independente da situação no país.
No cenário internacional, o Brasil condenou publicamente a repressão no Irã. Em sessão extraordinária do Conselho de Direitos Humanos da Nações Unidas, em Genebra, o embaixador brasileiro Tovar da Silva Nunes criticou o uso de força letal contra manifestantes pacíficos, prisões arbitrárias e bloqueios de internet.
Apesar disso, a diplomacia brasileira se absteve na votação de uma resolução que amplia investigações sobre violações de direitos humanos no Irã, patrocinada por países europeus. Segundo o embaixador, o Brasil defende que apenas o povo iraniano determine o futuro do país e mantém sua posição histórica contrária a sanções unilaterais, que, na avaliação do Itamaraty, agravam a crise econômica e social.
O comissário de direitos humanos da ONU, Volker Türk, classificou a repressão iraniana como um “padrão de força esmagadora”, enquanto o representante de Teerã acusou países ocidentais de hipocrisia e lembrou sanções e conflitos apoiados por eles na região.
Resta saber se a movimentação americana será usada apenas como instrumento de pressão ou se abrirá um novo e perigoso capítulo no já instável equilíbrio do Oriente Médio.