
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu o empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, no Palácio do Planalto, em 4 de dezembro de 2024, antes de o escândalo de fraudes bilionárias envolvendo a instituição se tornar público. O encontro não foi registrado na agenda oficial do presidente.
A reunião ocorreu no gabinete presidencial e contou com a presença do ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, que acompanhava Vorcaro, e do então CEO do banco, Augusto Lima, ex-sócio da instituição. A informação foi revelada inicialmente pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo, noticiada pelo portal Metrópoles e confirmada pela Folha de S.Paulo nesta segunda-feira (26).
Segundo relatos de interlocutores do governo, Lula chamou para a conversa os ministros Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira, além de Gabriel Galípolo, que à época era diretor do Banco Central e já estava indicado para assumir a presidência da autoridade monetária.
Durante o encontro, Daniel Vorcaro teria reclamado da concentração do mercado bancário brasileiro, alegando dificuldades enfrentadas pelo Banco Master frente às grandes instituições financeiras. Lula, segundo os relatos, respondeu que o tema deveria ser tratado tecnicamente pelo Banco Central e solicitou que Galípolo analisasse o assunto com isenção.
O caso do Banco Master se tornou especialmente sensível em Brasília pelas relações de Vorcaro com figuras do meio político. O governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, foi citado em depoimento pelo banqueiro, que afirmou ter conversado com ele sobre a possível venda do Master ao BRB, operação posteriormente barrada pelo Banco Central.
O presidente do PP, senador Ciro Nogueira, também é apontado nos bastidores como próximo a Vorcaro e teria auxiliado nas tratativas entre o Master e o banco estatal brasiliense.
O escândalo também provocou desgaste no Supremo Tribunal Federal. O ministro Dias Toffoli, relator do caso, passou a ser alvo de críticas após vir à tona a ligação de parentes seus a um fundo relacionado ao Banco Master, além da imposição de alto grau de sigilo ao processo.
Já o ministro Alexandre de Moraes enfrentou desgaste após a revelação de um contrato de R$ 3,6 milhões mensais entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua esposa, Viviane Barci.
Segundo a Folha, Lula tem demonstrado irritação com a condução do caso por Toffoli e chegou a dizer a aliados, reservadamente, que o ministro deveria deixar o STF por meio de aposentadoria ou renúncia. Apesar disso, auxiliares avaliam que o presidente não deve formalizar qualquer pedido nesse sentido.
A reunião no Planalto foi agendada por Guido Mantega, que, segundo reportagens, foi contratado pelo Banco Master como consultor por cerca de R$ 1 milhão mensais, a pedido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner. O ex-ministro teria atuado entre julho e novembro de 2025, recebendo ao menos R$ 16 milhões em honorários.
À época do encontro com Lula, os problemas do banco já eram conhecidos nos bastidores, e Mantega atuava como articulador para viabilizar a venda do Master ao BRB. Sob a gestão de Galípolo no Banco Central, porém, os técnicos se posicionaram contra a operação e, posteriormente, decretaram a liquidação do Banco Master, alegando fraudes estimadas em R$ 12 bilhões.
Mantega deixou a consultoria após a decisão do Banco Central. Procurados, ele não comentou o assunto, e Jaques Wagner negou ter solicitado a contratação. A assessoria do Planalto não explicou por que a reunião não constou na agenda oficial do presidente.