
Centenas de cidadãos americanos já foram detidos nos Estados Unidos por filmar operações do ICE, a polícia de imigração do país, em uma tentativa do governo de coibir registros das ações contra imigrantes sem documentos. Especialistas em direitos civis afirmam que a prática é protegida pela Constituição, desde que não haja interferência direta no trabalho dos agentes.
Um dos casos que chamou atenção ocorreu em janeiro, no estado de Minnesota. O corretor imobiliário Ryan Ecklund foi algemado, detido e mantido sob custódia por cerca de nove horas após filmar e acompanhar uma operação do ICE em seu bairro. Ele não foi acusado formalmente de nenhum crime.
Em entrevista ao Financial Times, Ecklund afirmou que decidiu gravar a ação por se sentir moralmente obrigado. “Senti que precisava registrar o que estava acontecendo. Alguém precisa fiscalizar quem recebe tanto poder”, disse.
Tribunais federais e cortes de apelação nos EUA já decidiram que filmar agentes públicos em serviço é permitido, desde que a pessoa não atrapalhe fisicamente a operação. Ainda assim, o Departamento de Segurança Interna (DHS) tem orientado agentes a tratar gravações como obstrução da Justiça ou interferência em funções federais.
Para críticos da política migratória do presidente Donald Trump, a repressão contra quem filma é uma forma de reduzir a transparência das operações, que se intensificaram desde o início da nova campanha de deportações.
“Nos Estados Unidos, as pessoas têm o direito de filmar ações do governo”, afirmou Janet Napolitano, ex-secretária de Segurança Interna. “Agentes deveriam ser treinados para lidar com isso, não reagir com violência.”
A maior parte dos confrontos recentes ocorreu em Minneapolis, onde dois cidadãos americanos — Renee Nicole Good e Alex Pretti — foram mortos por agentes federais em menos de um mês. As mortes causaram comoção nacional e aumentaram a pressão sobre o governo.
Situações semelhantes foram registradas em cidades como Santa Barbara, na Califórnia, e Portland, no Maine. Vídeos mostram moradores sendo empurrados, atingidos por spray de pimenta e ameaçados de prisão enquanto gravavam ações do ICE.
Em um dos registros, um agente chega a afirmar que uma mulher se tornaria “terrorista doméstica” apenas por filmar a operação.
Além das prisões, o governo também adotou medidas para limitar o monitoramento aéreo. Em janeiro, a Administração Federal de Aviação (FAA) proibiu o uso de drones próximos a veículos e instalações do DHS, o que, na prática, dificulta a cobertura jornalística.
Entidades como a União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU) e uma coalizão de veículos de imprensa alertaram que a regra coloca jornalistas em risco de punições criminais, mesmo em atividades protegidas pela Primeira Emenda.
A medida começa imediatamente em Minneapolis e deve ser ampliada para todo o país, conforme a liberação de recursos. O uso das câmeras era uma das principais exigências da oposição nas negociações do orçamento federal.