
Pesquisadores registraram pela primeira vez casos de melanismo em cervos-do-pantanal, condição genética que provoca uma pigmentação mais escura do que a normalmente encontrada na espécie. Os animais, chamados informalmente de “veados-pretos”, foram identificados no Pantanal de Mato Grosso do Sul e também no Cerrado, na divisa entre Minas Gerais e Bahia.
O estudo foi realizado por pesquisadores ligados à ONG Onçafari e documenta cientificamente uma característica que nunca havia sido confirmada no Pantanal em mais de quatro décadas de pesquisas e levantamentos sobre a espécie.
Normalmente, o cervo-do-pantanal possui pelagem marrom-avermelhada, com regiões mais claras no ventre e partes escuras nas pernas e na cauda. Considerado o maior cervídeo da América do Sul, o animal pode chegar a aproximadamente 130 quilos.
O melanismo é uma alteração genética relacionada à produção de melanina, pigmento responsável pela coloração da pele, dos pelos e de outras estruturas dos animais.
Quando há maior produção ou concentração desse pigmento, o indivíduo pode apresentar uma aparência significativamente mais escura do que outros animais da mesma espécie.
O fenômeno é diferente do albinismo, caracterizado pela ausência ou redução acentuada de melanina, e do leucismo, que também pode deixar os animais parcial ou completamente esbranquiçados.
No caso dos cervos estudados, a alteração resultou em pelagem predominantemente escura, dando origem à aparência incomum registrada pelos pesquisadores.
O primeiro registro oficial aconteceu em fevereiro de 2021, em Miranda, Mato Grosso do Sul, quando pesquisadores fotografaram uma fêmea adulta com melanismo.
O achado chamou atenção porque o Pantanal concentra aproximadamente 40 mil cervos-do-pantanal, cerca de 88% da população brasileira da espécie, e indivíduos com essa característica nunca haviam sido documentados cientificamente na região.
Apesar disso, existem relatos antigos de moradores sobre animais de pelagem escura em outras áreas pantaneiras.
No Cerrado, os registros foram mais frequentes. Entre fevereiro de 2025 e janeiro de 2026, dois terços das observações diretas realizadas pelos pesquisadores em uma das áreas estudadas envolveram animais melânicos. Pelo menos dois machos diferentes foram identificados, além de um indivíduo juvenil registrado posteriormente.

Uma das hipóteses é que o aparecimento mais frequente da característica no Cerrado esteja relacionado ao isolamento de pequenas populações de cervos.
A baixa diversidade genética pode favorecer fenômenos como endogamia e deriva genética, aumentando a possibilidade de determinadas características hereditárias se manifestarem.
A hipótese, entretanto, ainda precisa ser confirmada por estudos genéticos mais aprofundados.
Os animais observados apresentaram comportamentos considerados normais, como alimentação e convivência com cervos de coloração tradicional. Os registros ocorreram principalmente próximos a áreas inundáveis e fontes de água.
O cervo-do-pantanal é considerado uma espécie Vulnerável no Brasil e depende principalmente de ambientes úmidos para sobreviver.
Entre as principais ameaças estão perda e fragmentação do habitat, incêndios florestais, caça ilegal, mudanças climáticas, barragens e doenças transmitidas por animais domésticos.
No Cerrado, onde algumas populações estão em situação mais crítica, a redução de áreas úmidas também representa um problema. A transformação desses ambientes para atividades agropecuárias pode diminuir os locais disponíveis para alimentação, reprodução e abrigo da espécie.