
Pela primeira vez desde o início da guerra, as Forças Armadas de Israel reconheceram que ao menos 70 mil palestinos morreram durante o conflito na Faixa de Gaza. O anúncio foi feito nesta quinta-feira (29) e confirma números semelhantes aos divulgados pelo Ministério da Saúde de Gaza, controlado pelo Hamas.
O dado oficial palestino aponta 71.667 mortos ao longo de quase dois anos de guerra, iniciada após o ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023 e encerrada com o cessar-fogo firmado em outubro de 2025. Até agora, Israel questionava a confiabilidade dessas informações e não havia apresentado uma estimativa própria, exceto ao afirmar que teria matado cerca de 22 mil combatentes do Hamas no período.
Se confirmados, os números indicam que 3,5% da população de Gaza, estimada em 2 milhões de pessoas, morreu no conflito — uma das maiores proporções de mortes em guerras recentes.
Entidades internacionais, como a Organização das Nações Unidas, afirmam há meses que os dados do Ministério da Saúde de Gaza são, em geral, confiáveis, embora não façam distinção entre civis e combatentes.
Pesquisas independentes, no entanto, apresentam leituras distintas sobre a dimensão das mortes.
Em julho de 2025, um estudo da Universidade de Londres estimou que o número real de mortos poderia ser 65% maior do que o registrado oficialmente, chegando a cerca de 75 mil vítimas. Segundo o levantamento, 56% seriam mulheres, crianças ou idosos, além de aproximadamente 8 mil mortes indiretas, causadas por fome, falta de medicamentos ou atendimento médico.
Já um estudo publicado por pesquisadores da Austrália, em abril de 2025, apontou falhas graves nos dados palestinos, sugerindo que parte das mortes atribuídas a crianças envolveria, na verdade, integrantes do Hamas.
Mesmo reconhecendo o número geral de mortos, Israel afirmou que os dados do Ministério da Saúde de Gaza têm limitações, principalmente por não diferenciarem civis de combatentes. O governo israelense também nega que centenas de palestinos tenham morrido de fome, como sustenta a autoridade local.
Em agosto de 2025, a ONU alertou que cerca de 500 mil pessoas em Gaza estavam em situação catastrófica de desnutrição. As Forças Armadas israelenses afirmam que muitas mortes não ocorreram diretamente em bombardeios e estimam uma proporção de dois a três civis mortos para cada combatente.
O alto número de mulheres e crianças mortas, a destruição de hospitais, escolas e infraestrutura civil, além das restrições à entrada de ajuda humanitária, levaram organizações como a Anistia Internacional a acusar Israel de genocídio na Faixa de Gaza.
Israel e aliados, como os Estados Unidos, rejeitam essa acusação. O tema também é alvo de uma ação movida pela África do Sul na Corte Internacional de Justiça, à qual o Brasil aderiu em julho de 2025. O processo segue em andamento.
O cessar-fogo entre Israel e Hamas, em vigor há quase quatro meses, entra agora em uma fase decisiva. Na segunda-feira (26), o corpo do último refém mantido em Gaza foi encontrado e repatriado para Israel, encerrando simbolicamente a primeira etapa do acordo, mediado por Donald Trump.
A fase seguinte prevê:
reabertura da passagem de Rafah, na fronteira com o Egito;
retomada do fluxo de pessoas, ajuda humanitária e mercadorias;
entrega das armas pelo Hamas e aceitação de um governo tecnocrático palestino supervisionado internacionalmente.
O Hamas, porém, resiste. Nesta quinta-feira, o líder Moussa Abu Marzouk afirmou à Al Jazeera que o grupo “nunca concordou” em se desarmar. No mesmo dia, Trump declarou que “parece que o Hamas vai se desarmar”, sinalizando divergências sobre o futuro do acordo.