
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, afirmou nesta segunda-feira (11/5) que a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária de interditar lotes de produtos da Ypê foi baseada em critérios técnicos e sanitários, e não em motivações políticas. A declaração ocorreu após aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro iniciarem uma campanha nas redes sociais em defesa da empresa e criticarem a atuação da Anvisa.
Segundo Padilha, há uma tentativa de transformar um tema sanitário em disputa política.
“Tivemos uma enxurrada de vídeos irresponsáveis que desinformam a população. A Anvisa não tem lado partidário. Tem apenas um lado: a proteção da saúde das famílias brasileiras”, afirmou o ministro.
A polêmica começou após a Anvisa determinar, na última quarta-feira, o recolhimento de lotes de detergentes, lava-roupas líquidos e desinfetantes produzidos na unidade da empresa em Amparo, no interior de São Paulo. A medida atingiu produtos cujos lotes terminam em “1” e incluiu também a suspensão temporária da fabricação.

A decisão foi tomada após uma inspeção realizada no fim de abril por técnicos da própria Anvisa, da Vigilância Sanitária do Estado de São Paulo e da Vigilância Municipal de Amparo. O relatório apontou falhas estruturais, sinais de corrosão em equipamentos e risco potencial de contaminação microbiológica.
Padilha destacou que a fiscalização não foi conduzida apenas pelo governo federal e citou a participação de órgãos ligados ao governo do governador Tarcísio de Freitas. O ministro também mencionou o diretor da área técnica da Anvisa, Daniel Meirelles Fernandes Pereira, indicado durante o governo Bolsonaro.
“O diretor da área foi indicado no governo Bolsonaro, atuou no Ministério da Saúde naquele período e hoje cumpre uma função técnica dentro da agência”, disse.
Segundo o ministro, a própria empresa já havia identificado anteriormente a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em lotes produzidos na unidade de Amparo.
“Quando uma bactéria desse tipo aparece em um produto como esse, isso acende um alerta importante sobre possíveis falhas no processo produtivo”, declarou.
Padilha afirmou ainda que o caso vinha sendo acompanhado pelos órgãos sanitários havia mais de um ano, com inspeções recorrentes e exigências de adequação feitas à empresa.
“Não é um tema que surgiu agora. Já havia inspeções anteriores, reconhecimento de problemas pela própria empresa e acompanhamento técnico em andamento”, afirmou.
Na tarde desta segunda-feira, o portal g1 entrou na fábrica da Ypê em Amparo, cinco dias após a suspensão determinada pela Anvisa. Segundo a empresa, parte da produção segue parada para implementação das medidas exigidas pela agência reguladora.
O diretor executivo de Operações da Ypê, Eduardo Beira, informou que cerca de 400 funcionários atuam nos três turnos das plantas afetadas pela decisão.
O relatório da inspeção sanitária apontou equipamentos com sinais de corrosão, falhas em etapas críticas do processo produtivo e armazenamento inadequado de resíduos e produtos devolvidos às linhas de envase.
De acordo com a Anvisa, essas irregularidades comprometem as boas práticas de fabricação e podem aumentar o risco de contaminação microbiológica dos produtos.
A Ypê apresentou recurso administrativo contra a decisão e conseguiu suspender temporariamente os efeitos da interdição até nova análise da diretoria colegiada da Anvisa, prevista para quarta-feira (13). Apesar disso, a agência afirma que não alterou sua avaliação técnica sobre os riscos sanitários e mantém a recomendação para que consumidores não utilizem os produtos dos lotes afetados até a decisão definitiva.
A discussão rapidamente ganhou dimensão política nas redes sociais. Apoiadores de Bolsonaro passaram a acusar o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de perseguição contra a empresa, citando doações feitas por integrantes da família controladora da Química Amparo — dona da marca Ypê — à campanha de reeleição de Bolsonaro em 2022.
Segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral, membros da família Beira doaram cerca de R$ 1 milhão para a campanha do ex-presidente.
Nas redes sociais, políticos, influenciadores e celebridades publicaram vídeos utilizando produtos da marca em apoio à empresa. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo, publicou um vídeo lavando louça com detergente da marca e criticando a atuação da Anvisa.
O senador Cleitinho também gravou vídeos ironizando a fiscalização sanitária. Já o prefeito de Sorocaba, Rodrigo Manga, afirmou que os consumidores deveriam trocar os lotes afetados, mas criticou o que chamou de “massacre” contra a empresa.
A cantora Jojo Todynho e o ator Júlio Rocha também fizeram publicações utilizando os produtos da marca.
Enquanto isso, órgãos de vigilância sanitária reforçaram que a recomendação de não utilizar os produtos afetados continua válida até a conclusão definitiva da análise técnica.
Em nota, a Ypê afirmou que “a segurança dos consumidores é — e sempre será — sua maior prioridade”.