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Bloqueio do Discord pode não impedir crimes e levar usuários a outras plataformas

Após Janja defender retirada do serviço do ar, especialistas alertam que bloqueio pode ser contornado e provocar migração para plataformas mais distantes das autoridades brasileiras

Redação
Por: Redação
10/08/2026 às 16h04
Bloqueio do Discord pode não impedir crimes e levar usuários a outras plataformas
Foto: Reprodução

A possibilidade de suspensão do Discord no Brasil entrou em discussão após a primeira-dama Janja da Silva defender que a plataforma seja retirada “imediatamente” do ar. A manifestação ocorreu depois da morte de uma adolescente de 13 anos, em Naviraí, Mato Grosso do Sul, em um caso investigado pela polícia.

Segundo as investigações, a adolescente teria sido coagida por outros usuários e morreu durante uma transmissão ao vivo. Cinco adolescentes, com idades entre 13 e 17 anos, foram apreendidos, e um homem de 18 anos foi preso por suspeita de envolvimento no caso.

As apurações apontam que o grupo utilizava o Discord e o Telegram para atrair vítimas, disseminar discursos de ódio, promover a radicalização de jovens e estimular comportamentos violentos.

Durante evento no Palácio do Planalto, Janja afirmou que o Discord deveria ser bloqueado no país. O secretário Nacional de Direitos Digitais do Ministério da Justiça, Victor Fernandes, informou que a polícia chegou a solicitar a suspensão da plataforma, mas o pedido foi negado pelo Judiciário.

A Advocacia-Geral da União (AGU) também avalia medidas contra a empresa. O advogado-geral da União, Jorge Messias, solicitou informações sobre o caso ao Ministério da Justiça para subsidiar uma possível ação civil pública.

Dados da SaferNet apontam que as denúncias envolvendo o Discord aumentaram 54% entre janeiro e julho deste ano em comparação com o mesmo período de 2025. Foram 406 registros em 2026, contra 264 no ano passado.

Especialistas apontam limitações de eventual bloqueio

Apesar da gravidade das denúncias, especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que simplesmente retirar o Discord do ar pode não impedir a continuidade das atividades criminosas.

Uma das possibilidades é que usuários recorram a redes privadas virtuais, as VPNs, para contornar o bloqueio e continuar acessando o serviço. A tecnologia permite que uma conexão seja direcionada por servidores localizados em outros países.

Outra consequência apontada é a migração dos grupos para outras plataformas. Nesse cenário, criminosos poderiam passar a utilizar serviços que não possuem representação legal no Brasil, dificultando ainda mais investigações e o cumprimento de determinações judiciais.

O Discord possui representante no país e mantém contato com autoridades brasileiras. A empresa afirmou que não tolera grupos ou indivíduos que incentivem a violência e disse estar cooperando com as investigações relacionadas ao caso da adolescente.

Especialistas também apontam problemas relacionados à moderação dentro da plataforma. Entre eles estão dificuldades na verificação da idade dos usuários e na identificação automática de conteúdos potencialmente criminosos produzidos em português.

O Discord funciona por meio de comunidades conhecidas como servidores, algumas delas fechadas e acessíveis apenas por convite. Essa estrutura pode dificultar a identificação de conteúdos ilegais antes que sejam denunciados.

Governo investiga plataforma e avalia medidas

O bloqueio nacional de uma plataforma é tecnicamente possível no Brasil. Em caso de determinação judicial, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) pode comunicar as operadoras para que interrompam o acesso ao serviço.

Especialistas destacam, porém, que a medida não garante um bloqueio integral. Além da possibilidade de utilização de VPNs, o país possui milhares de pequenos provedores de internet, o que pode dificultar a implementação simultânea da restrição.

O Estatuto Digital da Criança e do Adolescente prevê diferentes níveis de sanções para plataformas digitais, que podem incluir advertências, multas e, em casos mais graves, suspensão do serviço.

A Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu um processo para investigar possíveis falhas do Discord no cumprimento das regras de proteção de crianças e adolescentes. A apuração envolve os mecanismos utilizados para verificar a idade dos usuários, prevenir conteúdos relacionados à automutilação e ao suicídio e comunicar casos graves às autoridades.

Caso sejam constatadas irregularidades, a plataforma poderá ser obrigada a modificar suas práticas e estará sujeita às penalidades previstas na legislação, incluindo multas de até R$ 50 milhões por infração.

Após a repercussão do caso, a AGU informou ainda que o Discord se comprometeu a apresentar um plano com medidas para ampliar a segurança dos usuários no Brasil.

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