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Tecnologia brasileira usa webcam para estudar padrões do olhar e auxiliar na triagem precoce de sinais de autismo

Estação Awri transforma câmeras convencionais em ferramenta de rastreamento ocular e passa por etapa de validação científica para avaliar sua contribuição na identificação precoce de sinais associados ao desenvolvimento infantil.

Redação
Por: Redação
20/08/2026 às 22h11 Atualizada em 21/08/2026 às 22h24
Tecnologia brasileira usa webcam para estudar padrões do olhar e auxiliar na triagem precoce de sinais de autismo

Antes mesmo de uma criança aprender a falar, a forma como ela observa o mundo pode revelar informações importantes sobre seu desenvolvimento. Para onde direciona o olhar, quanto tempo permanece diante de determinados estímulos e como distribui sua atenção são comportamentos que vêm sendo estudados pela ciência com o uso de tecnologias de rastreamento ocular.

É nessa área que uma tecnologia brasileira busca avançar. A Estação Awri utiliza uma webcam e processamento computacional para analisar padrões do olhar durante estímulos audiovisuais e integrar essas informações a outras etapas de triagem do desenvolvimento infantil.

A proposta não é realizar um diagnóstico de autismo por meio de uma câmera. O objetivo é investigar se determinados padrões oculomotores podem fornecer informações adicionais e objetivas para auxiliar profissionais na identificação de sinais que mereçam uma avaliação mais aprofundada.

Da webcam ao rastreamento ocular

Tradicionalmente, pesquisas com eye tracking utilizam equipamentos especializados para identificar com precisão para onde uma pessoa está olhando. Esses dispositivos, porém, podem representar uma barreira para a expansão da tecnologia para além de laboratórios e grandes centros de pesquisa.

A Awri desenvolveu uma abordagem baseada em câmeras convencionais. Durante a experiência na Estação Awri, crianças são expostas a estímulos audiovisuais enquanto uma webcam registra informações utilizadas para estimar a trajetória e a distribuição do olhar.

O sistema busca analisar elementos como fixações, atenção visual e o comportamento diante de diferentes regiões apresentadas na tela.

A tecnologia faz parte de uma proposta multimodal de triagem. Além da análise do comportamento visual, o processo reúne informações clínicas e comportamentais fornecidas pelos responsáveis e pode incluir a observação de vídeos da criança em situações cotidianas.

A integração dessas diferentes informações busca oferecer dados adicionais para apoiar a avaliação realizada por profissionais.

Pesquisa busca validar tecnologia

A próxima etapa do projeto será a validação científica da tecnologia. A Estação Awri está inserida em uma linha de investigação voltada a avaliar o rastreamento ocular remoto como ferramenta não invasiva para a triagem de sinais associados ao transtorno do espectro autista em crianças a partir de 16 meses.

A pesquisa será desenvolvida na Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública, sob orientação da doutora em Ciências pela USP, Juliana Goulardins. “Sabemos que muitas famílias ainda enfrentam longas filas e dificuldades de acesso a vários profissionais especializados. Nesse contexto, investigar uma ferramenta acessível e não-invasiva, de fácil aplicação, como o rastreamento ocular por webcam, pode contribuir pra tornar a triagem de risco mais ampla e viável. É importante destacar que a proposta não é substituir avaliação clínica ou utilizar a tecnologia pra estabelecer o diagnóstico. O objetivo é investigar o seu potencial como uma ferramenta complementar de triagem, auxiliando na identificação de crianças que necessitam de avaliação especializada. Esse estudo piloto representa, portanto, um passo muito importante para aproximar inovação tecnológica, evidência científica e ampliação do acesso ao cuidado", conta Juliana.

O estudo integra a pesquisa de mestrado do médico Luís Felipe Sales, no Programa de Mestrado Profissional em Tecnologias em Saúde, e avaliará o desempenho da tecnologia em crianças pequenas, considerando aspectos como acurácia, consistência dos dados, usabilidade e viabilidade de aplicação em contextos reais.

A fase de validação será fundamental para determinar se os dados obtidos por meio de uma webcam apresentam consistência suficiente para contribuir com processos de triagem e apoio à investigação profissional.

Olhar é apenas uma parte da avaliação

Pesquisas científicas vêm investigando há décadas diferenças nos padrões de atenção visual entre crianças autistas e crianças sem diagnóstico.

Estudos apontam que, em determinados contextos, podem existir diferenças mensuráveis na forma como a atenção é distribuída diante de estímulos sociais. No entanto, especialistas ressaltam que esses padrões não são uniformes e podem variar de acordo com a idade, os estímulos utilizados e as características individuais de cada criança.

Por isso, o rastreamento ocular não substitui uma avaliação clínica abrangente.

A proposta da tecnologia é justamente utilizar o comportamento visual como mais uma fonte de informação. Em vez de responder de forma isolada se uma criança possui ou não autismo, o sistema busca ajudar a identificar se existem sinais que justificam uma investigação mais detalhada.

Tecnologia pode ampliar acesso

A utilização de webcams também pode representar uma possibilidade de ampliar o acesso a tecnologias de rastreamento ocular.

Equipamentos especializados tendem a ficar concentrados em laboratórios e instituições capazes de investir em estruturas específicas. Uma solução baseada em hardware mais acessível poderia facilitar a utilização da tecnologia em clínicas, instituições e serviços localizados fora dos grandes centros.

A Estação Awri foi concebida como uma estrutura padronizada justamente para criar condições mais reproduzíveis para a aplicação da tecnologia.

O potencial da inovação, no entanto, dependerá dos resultados da pesquisa científica agora iniciada.

Se os estudos demonstrarem que o rastreamento ocular remoto pode produzir dados consistentes e reproduzíveis, uma ferramenta presente em praticamente qualquer computador moderno poderá ajudar a transformar movimentos do olhar em informações úteis para apoiar a triagem precoce do desenvolvimento infantil.

Para mais informações sobre o projeto, acesse o perfil no Instagram @awri.tech ou o site www.awri.com.br.

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