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De críticas a gays a promessas de respeito: o discurso de Flávio

Candidato à Presidência afirma que manterá direitos da população LGBTQIAPN+, mas declarações antigas sobre homossexualidade contrastam com o posicionamento adotado na reta final da campanha

Redação
Por: Redação
22/10/2026 às 17h22
De críticas a gays a promessas de respeito: o discurso de Flávio
Foto: Reprodução

O candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) passou a adotar um discurso de aproximação com a população LGBTQIAPN+ na reta final das eleições de 2026. Em um vídeo divulgado pelo influenciador digital Rico Melquiades, na segunda-feira (19), o senador afirmou que não pretende perseguir pessoas homossexuais nem retirar direitos já conquistados. As declarações contrastam com posicionamentos que o político manifestou publicamente no início de sua carreira, quando criticou a homossexualidade e demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo.

No encontro com Rico Melquiades, influenciador assumidamente gay que declarou apoio à candidatura do senador, Flávio foi questionado sobre a possibilidade de perseguição à população LGBTQIAPN+ em um eventual governo. O candidato negou essa intenção e afirmou que não cabe ao Estado interferir na intimidade dos cidadãos.

A conversa ganhou repercussão quando Rico perguntou se, caso Flávio fosse eleito, os homossexuais poderiam continuar "dando o caneco", expressão popular utilizada para se referir ao sexo anal. Em tom descontraído, o senador respondeu que sim e afirmou que sua responsabilidade como governante seria garantir a segurança das pessoas.

Flávio também prometeu preservar direitos como união estável, divisão de patrimônio e herança para casais do mesmo sexo. O posicionamento apresentado durante a campanha representa uma mudança de tom em relação a declarações feitas pelo próprio político há mais de uma década.

O que Flávio Bolsonaro dizia antes?

Em 2011, quando exercia seu terceiro mandato como deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro manifestava opiniões diferentes sobre a homossexualidade.

Em entrevista publicada naquele ano, o parlamentar afirmou que não considerava motivo de orgulho ter um filho gay. Também declarou sentir desconforto diante de demonstrações de afeto entre dois homens.

Na ocasião, Flávio disse considerar desagradável presenciar um beijo entre homens e afirmou que não se sentiria confortável caso um filho apresentasse um namorado à família.

Em outra gravação antiga, que voltou a circular nas redes sociais durante a campanha de 2026, o político utilizou um termo pejorativo para se referir à possibilidade de um casal desejar ter um filho homossexual. Na mesma declaração, relatou que se incomodaria ao presenciar dois homens se beijando em um restaurante.

Na época, Flávio negava ser preconceituoso e argumentava que suas posições estavam relacionadas à defesa dos valores familiares.

As declarações foram feitas em um período em que a família Bolsonaro se envolvia frequentemente em discussões públicas sobre sexualidade, educação e direitos da população LGBT.

A influência política de Jair Bolsonaro

Filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio construiu parte de sua trajetória política defendendo posições semelhantes às do pai, especialmente em temas relacionados aos costumes e à família.

Ao longo de sua carreira como deputado federal, Jair Bolsonaro fez declarações contrárias à homossexualidade e a políticas públicas de combate à discriminação.

Em 2011, durante participação no programa CQC, da Band, o então deputado associou a possibilidade de ter um filho gay à educação recebida em casa. Na ocasião, afirmou que seus filhos não seriam homossexuais porque haviam sido bem-educados.

Jair Bolsonaro também se posicionou contra materiais educativos voltados ao enfrentamento da homofobia nas escolas, frequentemente associando essas iniciativas ao que chamava de "ideologia de gênero".

Outro episódio de repercussão nacional ocorreu em abril de 2016, durante a votação do impeachment da então presidente Dilma Rousseff.

Ao anunciar seu voto favorável, Bolsonaro homenageou o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, militar que comandou o DOI-Codi de São Paulo durante a ditadura e foi reconhecido judicialmente como responsável por práticas de tortura.

Embora esse episódio não estivesse diretamente relacionado aos direitos LGBTQIAPN+, a declaração se tornou uma referência recorrente nas discussões sobre o histórico político de Jair Bolsonaro e sua bandeiras defendidas de opressão.

Candidato reforça novo discurso durante campanha no Ceará

A aproximação de Flávio Bolsonaro com o público LGBTQIAPN+ não ficou restrita ao encontro com Rico Melquiades.

Na quarta-feira (21), durante um evento de campanha em Fortaleza, no Ceará, o senador voltou a abordar o tema e afirmou que pessoas LGBT seriam bem-vindas em um eventual governo.

Flávio declarou que ninguém deve interferir na maneira como outra pessoa escolhe viver sua felicidade. O candidato também prometeu garantir oportunidades econômicas e melhores condições de segurança para todos os brasileiros, independentemente da orientação sexual.

O discurso foi apresentado a quatro dias do segundo turno, quando Flávio disputa a Presidência contra Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Apesar das manifestações recentes, o plano de governo do candidato não apresenta um conjunto detalhado de políticas específicas para a população LGBTQIAPN+. Entre os pontos relacionados ao tema está a proposta de restringir a participação de atletas trans em categorias femininas de competições esportivas.

Mudança de discurso ocorre na reta final da eleição

As manifestações recentes mostram uma diferença entre o posicionamento de Flávio Bolsonaro no início de sua carreira e a mensagem apresentada durante a campanha presidencial de 2026.

Se antes o político expressava desconforto com a homossexualidade e com demonstrações públicas de afeto entre pessoas do mesmo sexo, agora afirma que não pretende interferir na vida privada dos brasileiros e promete respeitar direitos já reconhecidos.

O movimento ocorre em um momento em que o candidato busca dialogar com diferentes segmentos do eleitorado, para além dos grupos tradicionalmente associados ao bolsonarismo.

A mudança de tom, entretanto, não permite concluir, por si só, que houve uma revisão integral das posições políticas do senador. Para avaliar o alcance das promessas, também é necessário considerar suas propostas de governo, seu histórico de atuação parlamentar e eventuais medidas que venha a defender.

Com o segundo turno marcado para domingo (25), o contraste entre as declarações antigas e as promessas atuais de Flávio Bolsonaro coloca em discussão a continuidade ou a mudança de seu posicionamento sobre os direitos da população LGBTQIAPN+.

-Por: Lucas Leonardo

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